Uso de celular ao volante pode estar subestimado nas estatísticas de acidentes

0
9

Pesquisas indicam que motoristas passam minutos olhando para o aparelho durante a condução, enquanto registros oficiais nem sempre conseguem identificar o celular como causa do sinistro

O uso do celular ao volante está entre as infrações mais frequentes no trânsito brasileiro, mas sua participação nos sinistros pode ser maior do que mostram os registros oficiais. Uma das dificuldades está na comprovação: o motorista pode não admitir a distração e, após uma colisão, nem sempre há elementos capazes de demonstrar que o aparelho estava sendo utilizado naquele momento.

Um estudo da Universidade Federal do Paraná (UFPR) em parceria com o Observatório Nacional de Segurança Viária (ONSV) acompanhou 32 motoristas de Curitiba durante 381 horas de condução real. Mesmo sabendo que estavam sendo filmados por três câmeras instaladas nos veículos, os participantes olharam para o celular, em média, durante oito minutos a cada hora ao volante. Cada consulta ao aparelho durou cerca de 55 segundos, e 45% delas ocorreram apenas para verificar notificações ou consultar o mapa.

A distração não se limita ao ato de olhar para a tela. Pesquisas citadas pelo estudo mostram que atividades que desviam a atenção do motorista também comprometem a capacidade de perceber e reagir aos acontecimentos da via. Em um levantamento realizado nos Estados Unidos, por exemplo, a digitação de mensagens ao volante manteve os olhos do condutor afastados da pista por 4,6 segundos, em média.

No Brasil, os dados oficiais podem não revelar toda a dimensão do problema. Levantamento citado pelo Jornal do Carro, com informações da Polícia Rodoviária Federal, apontou apenas 101 registros de sinistros em rodovias federais em 2026 nos quais o uso de celular apareceu explicitamente como causa. Ao mesmo tempo, categorias como “ausência de reação” e “reação tardia ou ineficiente” reuniram milhares de ocorrências. Esses registros, porém, não permitem concluir que o celular tenha sido responsável por elas.

A dificuldade de identificar a participação do aparelho também aparece em estudos realizados fora do país. Uma análise do Insurance Institute for Highway Safety (IIHS), nos Estados Unidos, comparou dados de telemetria com boletins policiais e encontrou uso do celular nos 30 segundos anteriores a 7% a 8% das colisões analisadas, enquanto os registros policiais apontaram essa condição em menos de 1% dos casos. O resultado sugere uma diferença importante entre o comportamento efetivamente registrado e aquilo que chega aos boletins oficiais.

Apesar da subnotificação, as autuações mostram que o comportamento é recorrente. Segundo os dados apresentados na reportagem, 601.349 motoristas foram multados por uso de celular ao volante apenas nos dois primeiros meses de 2026, uma média de cerca de sete autuações por minuto. Pelo Código de Trânsito Brasileiro, segurar ou manusear o telefone enquanto dirige é infração gravíssima, com multa de R$ 293,47 e sete pontos na CNH.

Recursos como comandos de voz, Android Auto, Apple CarPlay e modos de foco ao dirigir podem reduzir a necessidade de tocar no aparelho, mas não eliminam a distração. A recomendação dos órgãos de trânsito continua sendo preparar rota, música e demais funções antes de iniciar o deslocamento e evitar qualquer interação manual com o celular durante a condução.

Fonte: Terra / Jornal do Carro / UFPR / Observatório Nacional de Segurança Viária / IIHS / DNIT

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here