Carro ficou caro nos EUA? Estudo aponta que o verdadeiro vilão é o financiamento

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A sensação de que comprar um carro novo está cada vez mais difícil tornou-se comum entre consumidores em diversos países. Parcelas elevadas, juros altos e aumento do custo de vida alimentam a percepção de que os automóveis ficaram inacessíveis. No entanto, uma análise recente da consultoria automotiva Cox Automotive sugere que o principal problema pode não estar no preço dos veículos, mas sim no custo para financiá-los.

Segundo especialistas da empresa, quando os valores são corrigidos pela inflação, os preços dos carros novos permaneceram relativamente estáveis ao longo da última década. O que efetivamente encareceu a compra foi o aumento das taxas de juros, além dos custos associados à posse do veículo, como seguro, manutenção e combustível.

Preços cresceram menos do que parece

A conclusão faz parte da revisão semestral do mercado automotivo divulgada pela Cox Automotive. A analista executiva Erin Keating destaca que muitos consumidores observam apenas o preço nominal dos veículos, sem considerar a inflação acumulada no período.

Um dos exemplos utilizados é o do SUV Honda CR‑V, um dos utilitários esportivos mais vendidos dos Estados Unidos.

Em 2016, a versão de entrada do modelo era comercializada por cerca de US$ 28 mil. Atualmente, o preço médio de transação gira em torno de US$ 39 mil, uma diferença superior a US$ 11 mil.

À primeira vista, o aumento parece significativo. Entretanto, quando o valor de 2016 é corrigido pela inflação, o preço equivalente hoje seria de aproximadamente US$ 38,3 mil. Na prática, o modelo atual custa cerca de US$ 38,8 mil, apenas US$ 478 a mais.

Para os analistas, essa diferença demonstra que o valor real do veículo praticamente se manteve estável durante os últimos dez anos.

Mais tecnologia pelo mesmo valor real

A comparação fica ainda mais interessante quando se observa o que o consumidor recebe atualmente em troca desse investimento.

A versão 2026 do CR-V oferece uma lista de equipamentos muito mais ampla do que a disponível na versão de entrada comercializada em 2016.

Entre os recursos que passaram a integrar o pacote básico estão:

  • Motor turbo mais potente;
  • Central multimídia com tela de nove polegadas;
  • Integração sem fio com Apple CarPlay;
  • Sistema de partida por botão;
  • Pacote completo de tecnologias de assistência ao motorista.

Equipamentos que há uma década eram opcionais caros agora se tornaram itens de série em grande parte dos veículos.

Entre eles estão:

  • Frenagem automática de emergência;
  • Alerta de saída de faixa;
  • Monitoramento de tráfego cruzado traseiro;
  • Sistemas avançados de prevenção de acidentes.

A mudança reflete uma exigência crescente dos consumidores, que passaram a valorizar mais os índices de segurança dos automóveis.

Consumidor quer mais equipamentos e acaba gastando mais

Apesar da existência de versões básicas, a maioria dos compradores não opta pelos modelos mais baratos.

De acordo com a Cox Automotive, mais de 80% dos consumidores escolhem versões superiores, equipadas com mais itens de conforto, tecnologia e acabamento.

Isso faz com que o valor efetivamente pago fique, em média, cerca de US$ 7.200 acima do preço inicial anunciado pelas montadoras.

Segundo Erin Keating, não se trata de uma estratégia para enganar os compradores.

“As versões básicas existem. As fabricantes produzem esses veículos e os colocam nas concessionárias. O que acontece é que os consumidores simplesmente escolhem versões mais equipadas”, explica.

Um exemplo citado é o SUV Toyota RAV4. Embora o preço inicial esteja na faixa dos US$ 32 mil, o valor médio das transações se aproxima de US$ 41 mil, já que muitos clientes preferem versões híbridas mais sofisticadas, como as configurações XSE e Limited.

Juros elevados são os grandes responsáveis pelas parcelas mais altas

Se os preços dos veículos não aumentaram tanto quanto parece, por que as prestações ficaram tão pesadas?

A resposta está no crédito.

Nos últimos dez anos, as taxas de juros dos financiamentos automotivos passaram de aproximadamente 6,5% para 9,5%.

Essa elevação provocou um aumento médio de US$ 282 nas parcelas mensais dos financiamentos.

Atualmente, a prestação média de um carro novo nos Estados Unidos chega a US$ 753 por mês.

E esse valor não inclui outras despesas importantes associadas à propriedade de um veículo.

O custo total de possuir um carro continua subindo

Além do financiamento, os motoristas enfrentam aumentos em praticamente todas as despesas relacionadas à mobilidade individual.

Entre os principais fatores estão:

  • Seguros mais caros;
  • Custos crescentes de manutenção;
  • Aumento dos preços dos combustíveis;
  • Reposição de peças mais sofisticadas;
  • Maior complexidade tecnológica dos veículos modernos.

O resultado é uma pressão crescente sobre o orçamento das famílias, mesmo quando o preço real do automóvel permanece relativamente estável.

Pressão econômica amplia sensação de falta de acessibilidade

Para os especialistas da Cox Automotive, a percepção de que os carros ficaram excessivamente caros está ligada a um fenômeno mais amplo: o aumento geral do custo de vida.

Moradia, alimentação, saúde, educação e transporte vêm consumindo uma parcela cada vez maior da renda das famílias, reduzindo a capacidade de assumir novos financiamentos.

Nesse contexto, o veículo acaba se tornando um dos símbolos mais visíveis dessa perda de poder de compra.

A conclusão da análise é que as parcelas realmente estão mais altas, mas o principal responsável não é o automóvel em si. O impacto maior vem do custo do dinheiro, dos juros mais elevados e das demais despesas associadas à vida moderna.

Em outras palavras, os consumidores estão pagando mais para financiar e manter seus veículos, mesmo recebendo carros mais seguros, tecnológicos e equipados do que aqueles disponíveis há uma década.

Fonte: Axios — “You get what you pay for — and more”, com dados da Cox Automotive.

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