Carros cada vez mais tecnológicos elevam custos de reparo e transformam manutenção em desafio digital

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O avanço da tecnologia embarcada nos automóveis está mudando radicalmente a forma como os veículos são reparados após acidentes. Sistemas eletrônicos que ajudam motoristas a evitar colisões, manter o carro na faixa de rolamento e monitorar pontos cegos tornaram-se itens comuns nos modelos mais recentes. No entanto, essa evolução tem um preço: consertar um carro moderno pode custar milhares de dólares a mais do que há poucos anos.

Especialistas alertam que, à medida que os veículos se tornam mais dependentes de softwares, câmeras, radares e sensores, a precisão desses equipamentos passa a ser fundamental para a segurança. Como consequência, os reparos exigem mão de obra especializada, equipamentos sofisticados e procedimentos rigorosos de calibração.

Sensores aumentam segurança, mas também os custos

A maioria dos veículos lançados atualmente conta com Sistemas Avançados de Assistência ao Condutor (ADAS, na sigla em inglês). Entre as tecnologias mais difundidas estão o alerta de ponto cego, assistente de permanência em faixa, frenagem automática de emergência e controle de cruzeiro adaptativo.

Embora esses recursos contribuam para reduzir acidentes e salvar vidas, eles também tornam os reparos mais complexos. Após uma colisão, não basta substituir peças danificadas. Muitas vezes é necessário recalibrar sensores, câmeras e radares para garantir que continuem funcionando com precisão.

Segundo um estudo realizado pela Associação Automobilística Americana (AAA) em 2023, a presença de sistemas ADAS pode aumentar em quase 38% o custo total de um reparo após um acidente.

Um exemplo citado pela entidade mostra que a simples substituição de um retrovisor lateral em um veículo fabricado em 2023 custou aproximadamente US$ 1.500. Desse valor, cerca de 70% estava relacionado à pequena câmera integrada ao conjunto do retrovisor.

Pequenos deslocamentos podem comprometer a segurança

De acordo com Janet Ruiz, porta-voz do Insurance Information Institute, até mesmo alterações mínimas na posição dos sensores podem gerar problemas significativos.

“Após uma colisão, mesmo um pequeno deslocamento em um sensor pode comprometer a capacidade do veículo de detectar riscos na estrada”, afirma.

Isso significa que um equipamento aparentemente intacto pode deixar de funcionar corretamente caso sua posição original seja alterada por alguns milímetros durante um impacto.

Oficinas enfrentam dificuldades para acompanhar evolução tecnológica

O crescimento da eletrônica automotiva também está criando desafios para oficinas independentes e centros de reparação tradicionais.

Muitos estabelecimentos ainda não possuem profissionais treinados nem equipamentos adequados para realizar os processos de calibração exigidos pelas montadoras e pelas seguradoras. Como resultado, diversas oficinas precisam terceirizar esse serviço ou contratar empresas especializadas.

Além do investimento elevado em equipamentos, os procedimentos exigem ambientes controlados e técnicos altamente capacitados, o que encarece ainda mais a operação.

Inteligência artificial entra na oficina

Diante desse cenário, empresas de tecnologia estão desenvolvendo soluções para tornar o processo mais rápido e eficiente.

Uma delas é a startup Kinetic, sediada no Vale do Silício, que utiliza robótica e inteligência artificial para automatizar a calibração de sistemas ADAS.

A empresa inaugurou recentemente três novos centros de serviço — dois na cidade de Phoenix e um em Los Angeles — alcançando um total de 11 unidades. O plano é expandir para 100 centros de calibração em todo o território norte-americano.

O CEO e cofundador da empresa, Nikhil Naikal, define a Kinetic como uma espécie de “versão de alta tecnologia da Jiffy Lube”, tradicional rede de serviços automotivos dos Estados Unidos.

Como funciona o sistema

O processo desenvolvido pela Kinetic começa com um escaneamento completo do veículo. Equipamentos analisam danos físicos e eletrônicos e geram uma estimativa detalhada do reparo necessário.

Após a conclusão dos reparos mecânicos e estruturais pela oficina, o veículo retorna ao centro da Kinetic. Em seguida, robôs realizam uma nova varredura e recalibram os sensores utilizando plataformas automatizadas.

Segundo a empresa, um técnico humano leva cerca de 90 minutos para executar manualmente o procedimento. Os sistemas robóticos conseguem realizar a mesma tarefa em menos de 10 minutos.

A companhia afirma que a tecnologia pode gerar economia de até US$ 750 por veículo para as seguradoras e reduzir em até quatro dias o tempo necessário para devolver o automóvel ao proprietário.

Entre os investidores da startup estão importantes grupos do setor de seguros, como a Allstate e a Liberty Mutual.

O próximo desafio: manutenção contínua dos sensores

Especialistas acreditam que o tema da calibração não ficará restrito aos reparos pós-acidente.

Com o passar do tempo, sensores e câmeras podem sofrer pequenas alterações em sua precisão devido ao desgaste natural, vibrações, impactos leves e condições ambientais. Esse processo, conhecido como “desvio de calibração”, pode ocorrer sem que o motorista perceba.

Empresas como a alemã Obsurver já desenvolvem sistemas capazes de monitorar continuamente o desempenho dos sensores e alertar os condutores quando a calibração ultrapassar limites considerados seguros.

A tendência é que a manutenção dos sensores se torne tão importante quanto as tradicionais revisões mecânicas realizadas atualmente.

Preparando o caminho para veículos autônomos

A Kinetic afirma que, neste momento, está focada na restauração das configurações originais dos sistemas ADAS. Entretanto, a empresa já planeja atuar futuramente na manutenção contínua de frotas de veículos autônomos.

A expectativa do setor é que, à medida que carros sem motorista se tornem mais comuns, a calibração constante dos sensores passe a ser um requisito essencial para a operação segura desses veículos.

Uma nova era da manutenção automotiva

Durante décadas, a segurança de um automóvel esteve diretamente relacionada à manutenção de componentes mecânicos, como freios, suspensão, pneus e motor. Agora, a transformação digital da indústria automotiva está criando uma nova realidade.

No futuro próximo, manter um veículo seguro poderá depender não apenas do estado de suas peças físicas, mas também da precisão de seus sensores, câmeras, radares e softwares. Em um mercado cada vez mais tecnológico, a oficina mecânica tradicional começa a dar lugar a centros de reparação altamente digitalizados, onde inteligência artificial e robótica terão papel fundamental na manutenção da mobilidade.

Fonte: Axios — “Repairing high-tech cars”, reportagem de Joann Muller.

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