Gestão que move o sistema: o que Salvador e São Paulo mostram sobre o transporte por ônibus

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Por Emerson Pereira – Foto Montagem com uso de IA

A qualidade do transporte por ônibus em grandes cidades não é resultado apenas da frota em circulação, mas da forma como o sistema é estruturado, regulado e continuamente ajustado pelo poder público. A comparação entre São Paulo e Salvador evidencia como modelos distintos de gestão influenciam diretamente a eficiência da operação e a experiência do passageiro.

Em sistemas mais consolidados, a gestão do transporte coletivo se apoia em três pilares centrais: planejamento da rede, padronização operacional e adequação da frota à demanda. Em São Paulo, esses elementos são coordenados pela SPTrans, que atua com forte capacidade regulatória e define diretrizes detalhadas para a operação.

Nesse modelo, a rede é estruturada de forma integrada, e não como um conjunto isolado de linhas. A alocação da frota segue critérios técnicos: corredores de maior demanda recebem veículos de maior capacidade, como articulados e superarticulados, enquanto áreas de menor fluxo são atendidas por ônibus menores. Essa lógica permite otimizar a operação e reduzir desequilíbrios entre oferta e demanda.

A padronização é outro elemento-chave. Em São Paulo, identidade visual, configuração interna dos veículos e organização territorial seguem diretrizes definidas pela gestão pública. A divisão da cidade em áreas operacionais, associadas a consórcios específicos e identificadas por cores, facilita a leitura do sistema pelo usuário e contribui para uma operação mais coerente.

A evolução da infraestrutura acompanha esse modelo. A expansão de corredores e faixas exclusivas aumenta a velocidade comercial e reduz a variabilidade das viagens. Paralelamente, a cidade diversificou sua frota e avançou na transição energética, com a incorporação em larga escala de ônibus elétricos, sinalizando uma estratégia de longo prazo.

Em Salvador, o sistema também passou por uma tentativa de organização com a implantação do Integra, em 2015, que propunha a divisão da cidade em áreas operacionais e maior integração entre modais. No entanto, a evolução desse modelo tem sido marcada por descontinuidades.

A saída do Consórcio Salvador Norte (CSN), sem a substituição por um novo operador, comprometeu a lógica original de zoneamento. A redistribuição das linhas entre os demais consórcios reduziu a coerência territorial e contribuiu para uma percepção de desorganização do sistema.

Do ponto de vista operacional, a adequação da frota à demanda ainda é um desafio relevante. Diferentemente do modelo paulistano, Salvador apresenta menor capacidade de direcionar o tipo de veículo conforme a necessidade de cada linha. Como resultado, corredores de alta demanda seguem sendo atendidos por ônibus convencionais, o que gera superlotação frequente, inclusive fora dos horários de pico.

As decisões recentes de renovação da frota também trazem implicações diretas. A adoção de veículos ligeiramente menores, com cerca de 12,6 metros, e configuração interna com três espaços destinados a cadeirantes, reduz a área útil para passageiros e aumenta a densidade de ocupação em pé. Embora a acessibilidade seja essencial, a falta de equilíbrio entre capacidade e demanda impacta o conforto e a eficiência da operação.

A informação ao usuário, elemento fundamental em sistemas bem geridos, também apresenta lacunas. A retirada do código traseiro que indicava a linha em operação dificultou a identificação dos veículos — medida cuja reversão está prevista apenas para 2026. Soma-se a isso a ausência de uma plataforma oficial consolidada com horários e itinerários atualizados, o que limita o acesso à informação e amplia a dependência de aplicativos de terceiros.

A diferença entre os sistemas também se reflete na evolução da frota. Enquanto São Paulo opera com ampla diversidade de veículos e avança na adoção de tecnologias mais limpas, Salvador ainda possui presença limitada de ônibus de maior capacidade e de propulsão elétrica, concentrados no BRT, cuja cobertura territorial é reduzida.

Sob a ótica da gestão, essas diferenças estão associadas também ao modelo de financiamento. O sistema paulistano conta com aportes públicos robustos, que permitem maior controle sobre a operação e investimentos contínuos. Em Salvador, embora haja participação do poder público, o sistema ainda depende majoritariamente da tarifa paga pelo usuário, o que restringe a margem para ajustes estruturais mais profundos.

Ao comparar os dois cenários, fica evidente que a gestão é o principal motor da qualidade do serviço. Mais do que a renovação da frota, são o planejamento consistente, a regulação efetiva e a capacidade de adaptação à demanda que determinam o desempenho do sistema. No fim, é essa engrenagem — invisível para muitos — que move o transporte por ônibus e define, diariamente, a experiência de quem depende dele.

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