Menos ônibus nas ruas? Os números mostram que a percepção do passageiro faz sentido

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Por Emerson Pereira – Foto Reprodução SóMob

Para muitos usuários do transporte público de Salvador, a sensação de que há menos ônibus circulando pela cidade se tornou cada vez mais comum nos últimos anos. Seja pela maior espera nos pontos, pela lotação em determinados horários ou pela redução de linhas diretas, a percepção dos passageiros encontra respaldo nos números: a capital baiana opera hoje com cerca de mil ônibus a menos do que possuía há uma década.

Para entender esse cenário, é preciso voltar a 2015, ano da implantação do Sistema Integra. Naquele período, Salvador contava com uma frota próxima de 3 mil ônibus, distribuída entre os consórcios Salvador Norte (CSN), OT Trans e Plataforma. A maior parte das linhas realizava ligações diretas entre bairros e regiões centrais da cidade, reduzindo a necessidade de integrações ao longo das viagens.

Na época, o sistema metroviário ainda possuía uma cobertura limitada e exercia um papel menor na dinâmica dos deslocamentos urbanos. A integração entre ônibus e metrô existia, mas atendia um número reduzido de linhas e usuários.

A principal mudança ocorreu em 2017, quando Prefeitura de Salvador e Governo da Bahia ampliaram a integração tarifária entre os dois modais. A partir daquele momento, os passageiros passaram a poder utilizar ônibus e metrô pagando apenas uma tarifa dentro das regras estabelecidas pelo sistema.

A nova política trouxe benefícios para muitos usuários, mas também promoveu uma profunda reorganização da rede de transporte. Diversas linhas que antes seguiam até áreas centrais passaram a ser encurtadas e direcionadas para terminais de integração com o metrô, alterando uma lógica de deslocamento que havia predominado na cidade por décadas.

Com percursos menores, as empresas passaram a necessitar de menos veículos para operar parte das linhas. Ao mesmo tempo, uma parcela significativa das viagens de longa distância passou a ser absorvida pelo metrô. O resultado foi uma redução gradual da frota de ônibus ao longo dos anos.

Além das mudanças operacionais, o setor enfrentou desafios financeiros. Antes da integração plena, a arrecadação das tarifas ficava integralmente com as empresas de ônibus. Com a expansão do modelo intermodal, a receita passou a ser compartilhada entre ônibus e metrô, alterando a estrutura econômica do sistema.

A situação se agravou a partir de 2020, quando a Concessionária Salvador Norte enfrentou uma grave crise operacional. Após um incêndio que atingiu parte da frota e uma série de dificuldades financeiras, a empresa foi alvo de intervenção da Prefeitura e deixou definitivamente o Sistema Integra em 2021.

A saída da CSN representou a retirada de aproximadamente 900 ônibus da operação da cidade. Sem a entrada de uma nova concessionária para assumir integralmente a área atendida pela empresa, os consórcios OT Trans e Plataforma absorveram as linhas e regiões anteriormente operadas pela CSN.

Para reforçar a operação, as duas concessionárias adquiriram cerca de 150 ônibus usados provenientes de Brasília. Apesar disso, a reposição ficou muito abaixo do número de veículos que deixaram de circular, contribuindo para uma redução significativa da frota disponível no sistema.

Segundo dados da Secretaria Municipal de Mobilidade (Semob), Salvador conta atualmente com cerca de 2 mil ônibus em operação. Desse total, 1.032 veículos pertencem ao consórcio OT Trans, 798 ao consórcio Plataforma e outros 92 integram a frota do BRT Salvador.

Embora a redução da demanda pelo transporte coletivo seja uma realidade observada em diversas cidades brasileiras — impulsionada pelo crescimento dos aplicativos de transporte, pelo aumento do uso de veículos particulares e pelos efeitos da pandemia —, o caso de Salvador reúne fatores específicos que ajudam a explicar a queda mais acentuada da frota.

Na prática, a cidade opera hoje com aproximadamente um terço a menos de ônibus em comparação ao período de implantação do Sistema Integra. E embora parte dessa redução esteja associada à expansão do metrô e à reorganização das linhas, a percepção dos passageiros de que há menos ônibus nas ruas não é apenas uma impressão.

Os números mostram que a frota encolheu de forma significativa nos últimos anos. O desafio agora é garantir que a busca por eficiência operacional não comprometa a qualidade do serviço oferecido à população, especialmente em uma cidade onde milhões de deslocamentos ainda dependem diariamente do transporte coletivo.

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