O governo brasileiro intensificou os esforços para acelerar a eletrificação do transporte público urbano e vê na cidade chinesa de Shenzhen uma referência estratégica para essa transformação. O tema ganhou destaque após uma missão internacional promovida pelo Ministério das Cidades, que levou uma delegação brasileira à China para conhecer de perto experiências de sucesso na operação de frotas de ônibus elétricos e na construção de uma cadeia produtiva voltada à mobilidade de baixa emissão.
A visita ocorreu dentro do “Tour de Estudo de Fabricantes de Ônibus Elétricos”, iniciativa voltada à troca de experiências entre representantes do Brasil, México e África do Sul. O objetivo foi aproximar gestores públicos, operadores de transporte e fabricantes das principais soluções adotadas em uma das cidades mais avançadas do mundo em eletrificação da mobilidade urbana.
A escolha de Shenzhen não foi por acaso. Com cerca de 18 milhões de habitantes, a metrópole chinesa se tornou uma das maiores referências globais em inovação urbana, tecnologia aplicada à mobilidade e transporte sustentável. Foi ali que nasceu um dos mais emblemáticos processos de transição energética do transporte coletivo, com a substituição gradual de veículos movidos a diesel por modelos elétricos em larga escala.
Além disso, Shenzhen abriga gigantes da tecnologia e da indústria, como BYD, Huawei, Tencent e DJI, formando um ecossistema industrial que passou a servir de modelo para países que buscam reduzir emissões e modernizar seus sistemas de transporte.
Brasil quer ir além da simples compra de veículos
Segundo o Ministério das Cidades, o Brasil reúne condições para se tornar uma liderança regional em soluções de mobilidade de baixa emissão, mas o desafio vai muito além da aquisição de ônibus elétricos.
A avaliação apresentada durante a missão é de que a eletrificação do transporte coletivo exige a construção de uma cadeia completa, envolvendo indústria nacional, infraestrutura de recarga, financiamento, qualificação profissional, manutenção especializada e planejamento urbano integrado.
O entendimento é que importar veículos prontos pode acelerar a renovação das frotas em um primeiro momento, mas não garante necessariamente desenvolvimento tecnológico e geração de empregos em larga escala no país. Por isso, a discussão passa também pela capacidade brasileira de transformar a eletromobilidade em uma política industrial permanente.
Novo PAC prevê quase 3 mil ônibus elétricos
Os investimentos previstos pelo governo federal mostram a dimensão da aposta na modernização do transporte coletivo.
Dados apresentados pelo Ministério das Cidades indicam que o Novo PAC Mobilidade reúne R$ 51,4 bilhões em propostas voltadas à melhoria do transporte público e da infraestrutura urbana.
Dentro desse montante, R$ 19,3 bilhões estão reservados ao eixo de Renovação de Frota, que prevê a aquisição de:
- 2.927 ônibus elétricos;
- 10.071 ônibus padrão Euro 6, tecnologia que reduz significativamente a emissão de poluentes;
- 30 ônibus movidos a gás natural veicular (GNV);
- 54 veículos sobre trilhos.
O volume de recursos coloca a renovação das frotas urbanas como uma das principais frentes de investimento em mobilidade pública dos próximos anos.
Infraestrutura é o maior desafio da transição
Embora a substituição de ônibus a diesel por veículos elétricos seja frequentemente apresentada como a principal etapa da descarbonização do transporte coletivo, especialistas apontam que o verdadeiro desafio está na infraestrutura necessária para sustentar essa mudança.
A operação de uma frota elétrica exige a instalação de redes de carregamento, adequações na distribuição de energia, centros de manutenção especializados, treinamento de equipes técnicas e sistemas de monitoramento capazes de acompanhar o desempenho dos veículos em tempo real.
A experiência chinesa mostra que a eletrificação bem-sucedida depende da integração entre fabricantes, operadores de transporte, concessionárias de energia e governos locais.
Shenzhen tornou-se símbolo da eletromobilidade mundial
A cidade chinesa passou a ser observada por gestores públicos de diversos países justamente por ter conseguido implantar uma transformação em larga escala sem comprometer a operação do transporte coletivo.
Ao longo dos últimos anos, Shenzhen consolidou um modelo baseado na combinação entre planejamento público, incentivo industrial e investimentos em tecnologia, criando um ambiente favorável para a expansão dos veículos elétricos.
Esse processo ajudou a transformar a cidade em uma vitrine mundial para soluções de mobilidade sustentável e em um dos principais laboratórios urbanos da eletromobilidade.
Brasil discute qual será seu papel na nova indústria
A missão internacional também trouxe à tona uma discussão considerada estratégica para o futuro da mobilidade brasileira: o país será apenas consumidor de tecnologias desenvolvidas no exterior ou conseguirá criar uma cadeia produtiva própria para atender a demanda crescente por veículos de emissão zero?
O debate envolve fabricantes de ônibus, produtores de baterias, fornecedores de componentes, empresas de tecnologia e instituições financeiras.
Com um dos maiores sistemas de transporte coletivo urbano do mundo e uma demanda crescente por soluções sustentáveis, o Brasil aparece como um mercado potencialmente relevante para a indústria da eletromobilidade. A questão agora é definir quanto desse processo ocorrerá dentro do território nacional.
Enquanto a renovação das frotas avança por meio dos investimentos previstos pelo Novo PAC, a experiência observada em Shenzhen reforça uma conclusão compartilhada por especialistas do setor: a eletrificação do transporte público não é apenas uma mudança de veículo, mas uma transformação estrutural que envolve indústria, energia, tecnologia e planejamento urbano de longo prazo.
Fonte: Fluxo Mobilidade Urbana, Ministério das Cidades, Novo PAC Mobilidade, BNDES



