Uma comparação apresentada durante a 82ª Assembleia Geral Anual da Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA), realizada no Rio de Janeiro, ganhou repercussão ao revelar que o lucro líquido obtido pelas companhias aéreas em 2026 será equivalente ao valor de um pão de queijo e uma garrafa de água para cada passageiro transportado. A afirmação chamou atenção por sugerir que um setor que movimenta bilhões de dólares gera um retorno surpreendentemente baixo por cliente. Mas até que ponto essa realidade representa uma ameaça ao setor aéreo? E será que os donos das empresas estão perdendo dinheiro? A resposta é mais complexa do que a manchete sugere.
Os números apresentados pela IATA indicam que o lucro líquido médio das companhias aéreas em 2026 deverá ser de apenas US$ 4,50 por passageiro, abaixo dos US$ 6 registrados em 2018. A entidade também reduziu drasticamente sua projeção de rentabilidade para o setor. O lucro global esperado caiu para US$ 23 bilhões, praticamente metade dos US$ 45 bilhões estimados para 2025, enquanto a margem líquida recuou para apenas 2%.
O principal motivo para essa deterioração é o aumento dos custos operacionais, especialmente do combustível. Segundo a IATA, o preço do querosene de aviação deverá ficar cerca de 70% mais alto em 2026, representando mais de 31% de todas as despesas do setor. O impacto financeiro estimado supera US$ 100 bilhões em custos adicionais para as companhias aéreas.
Apesar disso, interpretar esses números como um sinal de falência iminente ou de empobrecimento dos proprietários das companhias aéreas seria um equívoco.
Margem pequena não significa prejuízo
A própria comparação do pão de queijo pode levar o leitor a uma conclusão distorcida. Embora o lucro por passageiro seja efetivamente baixo, o setor continua operando no azul. Os US$ 23 bilhões de lucro líquido projetados para 2026 mostram que a aviação global permanece lucrativa, ainda que em patamares inferiores aos esperados anteriormente.
Especialistas lembram que a aviação sempre foi um negócio de margens apertadas. Diferentemente de empresas de tecnologia ou do mercado financeiro, companhias aéreas dependem de ativos extremamente caros, como aeronaves, hangares, centros de manutenção, simuladores, sistemas operacionais complexos e mão de obra altamente especializada. Por isso, margens de 2%, 3% ou 4% são consideradas relativamente normais para o setor.
Na prática, o que sustenta a rentabilidade das empresas não é o lucro obtido em cada bilhete individualmente, mas o gigantesco volume de passageiros transportados todos os anos. O modelo de negócio depende da escala.
Então por que as passagens continuam caras?
Essa é justamente uma das contradições que mais gera insatisfação entre os passageiros. Em redes sociais e fóruns de viagem, consumidores frequentemente reclamam dos preços elevados das passagens aéreas, especialmente em voos domésticos brasileiros. Muitos acreditam que os valores cobrados refletem lucros excessivos das companhias.
Os números da IATA mostram, porém, que grande parte da receita é absorvida por custos operacionais. Combustível, leasing de aeronaves, manutenção, aeroportos, taxas de navegação aérea, seguros e despesas regulatórias consomem a maior parcela do faturamento das empresas.
Isso não significa que as reclamações dos passageiros sejam infundadas. Em fóruns online, usuários relatam tarifas domésticas que chegam a rivalizar com viagens internacionais e criticam a concentração do mercado brasileiro. Entretanto, mesmo diante dessas críticas, os balanços do setor indicam que a rentabilidade continua relativamente baixa quando comparada a outras atividades econômicas.
Donos de companhias aéreas estão ficando pobres?
A resposta curta é: não.
Os controladores e acionistas das grandes empresas aéreas normalmente possuem patrimônio ligado ao valor de mercado das companhias, à valorização das ações e à capacidade futura de geração de receita, e não apenas ao lucro obtido em cada passagem vendida.
O que os dados revelam não é um empobrecimento dos empresários, mas sim uma vulnerabilidade estrutural do setor. Com margens tão reduzidas, qualquer choque externo — aumento do combustível, guerras, crises econômicas, desvalorização cambial ou queda na demanda — pode transformar rapidamente lucro em prejuízo.
A própria IATA alertou que 2026 será um ano particularmente difícil para companhias que ainda não se recuperaram totalmente dos impactos da pandemia e para empresas expostas às tensões geopolíticas no Oriente Médio.
O verdadeiro alerta por trás da comparação
A comparação do pão de queijo não demonstra que a aviação esteja quebrada. O dado serve, na verdade, para ilustrar como um setor frequentemente visto como bilionário opera com margens surpreendentemente pequenas.
A indústria conseguiu se recuperar das perdas históricas registradas em 2020 e 2021, quando acumulou prejuízos estimados em US$ 138 bilhões e chegou a operar com margem negativa de 35,8%. Hoje o cenário é muito melhor, mas continua distante da estabilidade observada em outros segmentos da economia.
Dessa forma, a principal conclusão não é que os donos das companhias aéreas estejam ficando pobres, mas que a aviação permanece um dos negócios mais sensíveis do mundo. Basta uma turbulência econômica para que um lucro equivalente a um pão de queijo por passageiro desapareça completamente.
Fonte: Aeroin, IATA, Estadão/UOL Economia



