Desenho das vias, largura das faixas e elementos do entorno podem influenciar a velocidade; especialistas defendem que engenharia e fiscalização trabalhem juntas para estimular comportamentos mais seguros
O limite de velocidade indicado em uma placa nem sempre corresponde à sensação transmitida pela própria rua. Avenidas largas, retas extensas, boa visibilidade e poucos obstáculos laterais podem fazer o motorista perceber determinada velocidade como baixa, enquanto vias mais estreitas e com maior presença de pedestres tendem a estimular uma condução mais cautelosa.
Essa relação entre o desenho urbano e o comportamento está no centro das discussões sobre segurança viária. Na reta final da Semana Nacional de Trânsito 2026, que ocorre entre 18 e 25 de setembro com o tema “Desacelere. Seu bem maior é a vida”, especialistas defendem que a engenharia também seja utilizada para tornar a velocidade segura mais intuitiva.
Segundo Celso Mariano, especialista em trânsito e diretor do Portal do Trânsito e da Tecnodata Educacional, o motorista continua responsável por respeitar a velocidade regulamentada, mas a infraestrutura pode facilitar ou dificultar esse comportamento. Recursos como faixas mais estreitas, travessias elevadas, rotatórias, ilhas de segurança e mudanças na geometria da via podem alterar a percepção de quem está ao volante. Essas estratégias são conhecidas como medidas de moderação de tráfego, ou traffic calming.
O conceito também considera que uma rua urbana não é utilizada apenas por veículos. Pedestres atravessam, caminham e aguardam o transporte coletivo; ciclistas dividem o espaço com carros e motos; estabelecimentos comerciais e residências aumentam a circulação de pessoas. Por isso, a velocidade considerada adequada precisa levar em conta o nível de interação entre os diferentes usuários da via.
Outro princípio adotado na segurança viária é o chamado Sistema Seguro, que parte do reconhecimento de que erros humanos podem acontecer. Uma distração momentânea, uma travessia mal calculada ou uma manobra inesperada não deveriam necessariamente resultar em morte ou lesão grave. A proposta é criar diferentes camadas de proteção envolvendo infraestrutura, veículos, velocidades e comportamento.
Isso não elimina a necessidade de fiscalização. Radares, sinalização e outras formas de controle continuam importantes, principalmente nos locais em que o comportamento seguro não ocorre espontaneamente. Para especialistas, o resultado tende a ser mais consistente quando engenharia, educação e fiscalização seguem a mesma lógica: a velocidade regulamentada deve estar claramente sinalizada e o desenho da via deve transmitir ao motorista a necessidade de respeitá-la. Dessa forma, a segurança deixa de depender apenas da decisão individual e passa a fazer parte da própria estrutura do espaço urbano.
Fonte: Portal do Trânsito, Mobilidade & Sustentabilidade



