A indústria automotiva brasileira entra em um período decisivo marcado pela transformação tecnológica, pelo avanço das montadoras chinesas e pela necessidade de aumentar a competitividade da produção nacional. Esse foi o principal diagnóstico apresentado durante o Anfavea Visions 2026, evento promovido pela Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), que reuniu executivos do setor para discutir o futuro da fabricação de veículos no país.
Segundo o presidente da entidade, Igor Calvet, a indústria brasileira precisa se preparar para uma mudança estrutural que já está em curso nos principais polos automotivos do mundo. O desafio, segundo ele, não envolve apenas a produção de novos veículos, mas também a capacidade de transformar vantagens históricas do Brasil — como mercado consumidor, matriz energética diversificada e experiência industrial — em investimentos e políticas de longo prazo.
Entrada de novas marcas amplia concorrência
Um dos temas mais debatidos durante o encontro foi a crescente presença de fabricantes chinesas no mercado brasileiro.
Atualmente, o setor contabiliza a chegada de 11 novas marcas, quase todas oriundas da China. Algumas delas já anunciaram planos para iniciar operações de montagem local, aumentando a competição em segmentos que historicamente eram dominados por fabricantes instaladas há décadas no país.
Os executivos presentes no evento defenderam que a indústria nacional precisa responder a esse novo cenário com ganhos de produtividade, ampliação da cadeia de fornecedores e maior capacidade de inovação tecnológica.
Nacionalização de componentes volta ao centro das discussões
Outro ponto considerado estratégico é o aumento da produção local de componentes.
Representantes das montadoras afirmaram que a dependência excessiva de peças importadas reduz a competitividade da indústria brasileira e limita a geração de empregos. O tema ganhou relevância principalmente diante do crescimento dos modelos de montagem baseados em kits importados, conhecidos como CKD (Completely Knocked Down) e SKD (Semi Knocked Down).
Durante os debates, executivos destacaram que ampliar a nacionalização de componentes e fortalecer a engenharia brasileira são medidas consideradas fundamentais para preservar a capacidade produtiva do país e reduzir vulnerabilidades externas.
Inteligência artificial e eletrificação mudam o setor
A transformação tecnológica também apareceu como uma das principais preocupações da indústria.
Os participantes do evento apontaram que a inteligência artificial deve acelerar mudanças nos processos produtivos, no desenvolvimento de veículos e na relação com os consumidores. Paralelamente, a expansão da eletrificação segue exigindo investimentos elevados em pesquisa, desenvolvimento e adaptação das fábricas.
O entendimento predominante foi de que a transição tecnológica não será restrita aos veículos elétricos. A indústria precisará lidar simultaneamente com múltiplas soluções de mobilidade, incluindo motores híbridos, biocombustíveis e novas plataformas digitais.
Produzir mais rápido e com menor custo
A necessidade de aumentar a velocidade da produção também foi destacada pelos executivos.
Apesar de reconhecer avanços recentes da indústria brasileira, representantes do setor afirmaram que o país ainda enfrenta desafios relacionados ao custo de produção, à burocracia e à velocidade de implementação de novos projetos. O objetivo é reduzir o tempo necessário para colocar novos produtos no mercado e responder mais rapidamente às mudanças globais.
O debate ocorre em um momento de forte transformação da indústria automotiva mundial, impulsionada por novas tecnologias, mudanças no comportamento dos consumidores e crescente concorrência internacional.
Brasil busca manter relevância global
Ao final do encontro, a avaliação da Anfavea foi de que o Brasil possui atributos importantes para continuar ocupando posição relevante na indústria automotiva global.
Entre os fatores citados estão a escala do mercado interno, a experiência acumulada pela engenharia nacional, a capacidade industrial instalada e a matriz energética considerada uma das mais limpas entre os grandes produtores de veículos do mundo. No entanto, a entidade ressaltou que esses diferenciais precisarão ser acompanhados por planejamento de longo prazo, investimentos contínuos e políticas coordenadas para que o país mantenha sua competitividade nos próximos anos.
Sem esse movimento, a avaliação apresentada durante o Anfavea Visions é de que a indústria brasileira corre o risco de perder espaço em um mercado global cada vez mais disputado e tecnologicamente complexo.
Fonte: Revista Carro, AutoIndústria, Anfavea Visions



