Brasil planeja R$ 430 bilhões em mobilidade, mas eletrificação da frota traz um novo desafio

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Estudo do BNDES mapeia 187 projetos de transporte coletivo até 2054; avanço dos ônibus elétricos amplia a necessidade de infraestrutura de recarga

Por Emerson Pereira – Foto Reprodução SóMob

O transporte público brasileiro terá de passar por uma forte expansão de investimentos nas próximas décadas. Dados apresentados pelo BNDES apontam que o setor precisaria receber cerca de R$ 50 bilhões por ano, contra uma média de R$ 6 bilhões anuais investidos na última década.

A dimensão desse desafio aparece no Estudo Nacional de Mobilidade Urbana (ENMU), elaborado pelo BNDES em parceria com o Ministério das Cidades. O levantamento identificou 187 projetos de transporte coletivo de média e alta capacidade em 21 regiões metropolitanas, com investimentos estimados em aproximadamente R$ 430 bilhões até 2054.

Entre os projetos estão cerca de R$ 80 bilhões em sistemas BRT e R$ 3,4 bilhões em corredores exclusivos de ônibus. O estudo também prevê a expansão de aproximadamente 2.500 quilômetros de redes de transporte coletivo, incluindo novos trechos de BRT, VLT e monotrilho.

Essa expansão ocorrerá em paralelo ao avanço da eletrificação dos ônibus. E, nesse cenário, o desafio não está apenas em substituir os veículos a diesel por modelos elétricos: será necessário definir como, onde e quando esses ônibus serão recarregados.

A recarga passa a fazer parte da operação

A estratégia de recarga depende das características de cada sistema. Os ônibus podem ser carregados nas garagens, em terminais ou durante a própria operação, por meio da chamada recarga de oportunidade.

A escolha interfere diretamente na autonomia dos veículos, no tamanho das baterias, na disponibilidade da frota e na infraestrutura elétrica necessária.

O financiamento também começa a acompanhar essa transformação. Segundo o BNDES, desde 2023 foram aprovados R$ 4,5 bilhões em crédito para projetos envolvendo cerca de 2 mil ônibus elétricos, com aproximadamente R$ 6 bilhões em investimentos associados.

O banco também financia infraestrutura de recarga em determinadas linhas, como o Fundo Clima. Na prática, veículos e sistemas necessários para mantê-los em operação começam a ser considerados dentro de um mesmo planejamento de investimento.

Uma das alternativas em desenvolvimento é o carregamento sem fio por indução magnética. A tecnologia permite transferir energia entre equipamentos instalados na infraestrutura e um receptor no ônibus, podendo ser utilizada durante paradas ou, em determinadas aplicações, com o veículo em movimento.

A Electreon, empresa especializada nessa tecnologia, participa de projetos internacionais, incluindo um sistema em Trondheim, na Noruega, onde um ônibus elétrico realiza recarga sem fio durante o trajeto e nas paradas.

Para sistemas de alta frequência, como BRTs, distribuir os momentos de recarga ao longo da operação pode ser uma alternativa a ser considerada. A escolha, porém, depende das características de cada cidade, rota, frota e rede elétrica.

O desafio vai além da compra dos ônibus

Com centenas de projetos de mobilidade previstos para as próximas décadas e a eletrificação avançando, a infraestrutura energética tende a ganhar espaço nas decisões sobre transporte público.

A questão passa a ser menos sobre quantos ônibus elétricos podem ser adquiridos e mais sobre como mantê-los disponíveis para operar durante toda a jornada.

Garagens, terminais, corredores, rede elétrica, carregadores e veículos precisarão ser planejados de forma integrada. É essa combinação que ajudará a determinar o custo, a capacidade e a eficiência da próxima fase da eletrificação do transporte coletivo brasileiro.

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