Aérotrain: o trem francês que chegou a 430 km/h levitando sobre uma pista

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Projeto desenvolvido nos anos 1960 chegou a ser considerado para uma ligação rápida entre Paris e outras cidades, mas perdeu espaço para o TGV

Décadas antes de os trens de alta velocidade se tornarem realidade em larga escala, a França testava uma tecnologia que parecia saída de um filme de ficção científica. O Aérotrain, desenvolvido pelo engenheiro Jean Bertin, utilizava uma almofada de ar para se manter alguns centímetros acima de uma pista de concreto e chegou a atingir 430,4 km/h em um teste realizado em março de 1974.

Diferentemente de um trem convencional, o veículo não dependia do contato das rodas com os trilhos para se deslocar. Ventiladores instalados no veículo lançavam ar sob alta pressão contra a pista, criando uma espécie de colchão que sustentava a composição. Os protótipos de alta velocidade utilizavam turbinas a gás, enquanto uma versão destinada a trajetos suburbanos, o S44, empregava motor elétrico linear e alcançava cerca de 200 km/h.

O projeto chegou a receber investimentos públicos e avançou até a definição de possíveis trajetos comerciais. Uma pista experimental de 18 quilômetros foi construída entre Saran e Ruan, na região de Orléans, e os testes realizados na estrutura ajudaram a consolidar a proposta de uma ligação entre Orléans e Paris em aproximadamente 20 minutos. Em 1971, uma comissão governamental chegou a selecionar uma rota entre Cergy-Pontoise e La Défense, com cerca de 23 quilômetros.

A decisão de abandonar o Aérotrain, porém, ocorreu em meio a uma combinação de fatores técnicos, econômicos e políticos. A mudança de governo, a crise do petróleo de 1973 e o elevado consumo de energia pesaram sobre o projeto. Além disso, o sistema exigia pistas e estações próprias, enquanto o TGV apresentava a vantagem de poder utilizar a infraestrutura ferroviária convencional em parte de seus trajetos.

Outro obstáculo foi a necessidade de construir uma rede completamente nova. Embora o Aérotrain pudesse atingir velocidades elevadas, sua infraestrutura exclusiva aumentava os custos e dificultava a integração com outras linhas. Também havia questionamentos sobre a maturidade de sua tecnologia de propulsão e sobre a viabilidade econômica de expandir o sistema. A relação com a SNCF, estatal responsável pelo sistema ferroviário francês, também aparece em relatos históricos como um dos elementos que influenciaram a disputa entre as duas soluções.

O Aérotrain acabou oficialmente deixado de lado após a confirmação do programa do TGV em 1975. Os testes prosseguiram até 1977, mas os protótipos não chegaram à operação comercial. O I80-HV foi destruído por um incêndio em 1992, enquanto o S44 havia sido destruído em outro incêndio em 1991. Apesar do fim do projeto, três protótipos em tamanho real e seis modelos foram reconhecidos como monumentos históricos na França em 2025, preservando parte da memória de uma tecnologia que chegou a superar 430 km/h, mas nunca se transformou em uma rede de transporte.

Fonte: Xataka Brasil / Franceinfo / Le Monde / Libération / Journal du Geek

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