Série do SóMob mostra como alguns problemas do sistema Integra podem ser enfrentados com organização e informação, sem depender necessariamente de grandes investimentos
Por Emerson Pereira – Foto Reprodução SóMob
Para utilizar o transporte público de Salvador, o passageiro precisa, muitas vezes, recorrer a aplicativos, consultar itinerários ou perguntar a outras pessoas para descobrir qual linha deve utilizar. Parte dessa dificuldade poderia ser reduzida com uma medida simples: tornar novamente intuitiva a identificação das linhas de ônibus da cidade.
Durante décadas, os códigos utilizados pelo sistema de transporte coletivo de Salvador seguiram uma lógica territorial. Desde o final dos anos 1980, as linhas eram identificadas, em geral, por quatro algarismos. Os dois primeiros indicavam a área de origem ou atendimento da linha, enquanto os dois últimos funcionavam como uma sequência dentro daquela região.
Na prática, o número da linha também funcionava como uma informação sobre o território. Códigos iniciados em 14, por exemplo, estavam associados à região de Cajazeiras, enquanto 15 identificava linhas relacionadas à região de Pirajá/Vista Alegre. A lógica permitia que o passageiro construísse, ao longo do tempo, um mapa mental da rede.
Essa característica, porém, foi sendo perdida com alterações promovidas pela Secretaria Municipal de Mobilidade (Semob), principalmente após a adoção de códigos específicos para alguns terminais de ônibus.
Quando o terminal passou a definir o número
A mudança ficou mais evidente com a criação de prefixos associados a determinados terminais. O Terminal Águas Claras passou a concentrar linhas iniciadas por 17, Campinas de Pirajá por 18 e o Terminal Retiro por 20.
Com isso, uma linha que anteriormente possuía um código relacionado à região passou a receber uma numeração vinculada ao terminal onde realiza sua operação.
Um exemplo ocorreu com a transferência de linhas para o Terminal Águas Claras. Códigos como 1343, 1352 e 1376foram substituídos, respectivamente, por 1714, 1715 e 1713.
A alteração pode parecer meramente administrativa, mas representa uma mudança na forma como o usuário interpreta a rede. O prefixo deixou de indicar necessariamente a região atendida e passou a indicar, em determinados casos, o terminal de referência da linha.
O problema é que essa lógica não foi aplicada de forma uniforme a toda a rede.
Enquanto Águas Claras, Campinas de Pirajá e Retiro passaram a contar com prefixos próprios, outros terminais da cidade continuam utilizando códigos associados às regiões onde estão localizados.
Uma lógica que poderia ser recuperada
Caso a divisão territorial original fosse mantida, as linhas vinculadas ao Terminal Águas Claras poderiam utilizar novamente o prefixo 14, correspondente à região de Cajazeiras. Campinas de Pirajá, por sua vez, poderia utilizar o 15, associado à região de Pirajá/Vista Alegre, enquanto o Retiro poderia utilizar o 03, relacionado à região de São Caetano/Fazenda Grande do Retiro.
A proposta não significa simplesmente voltar ao passado. O principal ponto é estabelecer uma regra única, previsível e compreensível para toda a rede.
Se o código representa a região, que essa lógica seja utilizada para todas as linhas. Se representa o terminal, que todos os terminais tenham códigos definidos dentro de um padrão. O que dificulta a compreensão é a coexistência de diferentes critérios dentro de uma mesma rede.
Informação também é infraestrutura
A numeração das linhas pode parecer um detalhe diante de problemas mais conhecidos do transporte público, como frota, congestionamentos, intervalos e qualidade dos veículos. No entanto, a forma como o sistema é apresentado ao usuário também influencia sua experiência de viagem.
Um sistema de transporte coletivo não precisa ser apenas operacionalmente eficiente. Ele também precisa ser legível.
Uma pessoa que conhece minimamente a lógica dos códigos consegue identificar, mesmo antes de consultar o itinerário, a região relacionada àquela linha. Essa informação é especialmente importante para usuários ocasionais, visitantes e passageiros que precisam fazer conexões entre diferentes áreas da cidade.
Com a perda dessa lógica, aumenta a dependência de aplicativos e de outras ferramentas externas para obter informações que poderiam estar incorporadas ao próprio sistema.
Isso não significa que os aplicativos sejam dispensáveis. Pelo contrário: eles são cada vez mais importantes. Mas um sistema de transporte bem organizado deve oferecer ao passageiro diferentes camadas de informação, e não depender exclusivamente de uma plataforma digital para explicar como funciona.
Uma mudança que não exige grandes investimentos
Recuperar uma lógica de numeração não significa necessariamente trocar toda a sinalização ou alterar centenas de ônibus de uma só vez.
A mudança poderia ser planejada de forma gradual, aproveitando a criação de novas linhas, alterações de itinerários, mudanças operacionais e renovação dos materiais de comunicação. Durante um período de transição, os códigos antigos e novos poderiam ser apresentados conjuntamente para evitar confusão.
O mais importante seria estabelecer uma política clara de identificação das linhas e mantê-la ao longo do tempo.
É justamente nesse ponto que começa a proposta desta série do SóMob: discutir problemas do sistema Integra que podem ser enfrentados não apenas com novos investimentos, mas também com organização, planejamento e comunicação com o passageiro.
A numeração das linhas é apenas um exemplo. Recuperar a capacidade de o usuário entender a rede de transporte a partir das próprias informações oferecidas pelo sistema pode ser uma mudança relativamente simples, mas com impacto direto na experiência de quem depende diariamente do ônibus em Salvador.
No transporte público, informação também é serviço. E, em alguns casos, organizar melhor o que já existe pode ser tão importante quanto investir em algo novo.



