O rival que Senna nunca conseguiu vencer

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Quando perguntado sobre quem havia sido o melhor piloto que enfrentou na vida, muitos esperavam que Ayrton Senna citasse nomes como Alain Prost, Nelson Piquet ou Nigel Mansell. No entanto, durante o Grande Prêmio da Austrália de 1993, a resposta surpreendeu o mundo do automobilismo: o brasileiro apontou Terry Fullerton como o adversário mais talentoso que já enfrentara. A declaração trouxe à tona a história pouco conhecida de um dos maiores nomes do kartismo mundial, que nunca chegou à Fórmula 1 por causa de uma tragédia familiar.

Naquele fim de semana em Adelaide, Prost estava prestes a encerrar sua carreira na Fórmula 1, enquanto Senna se preparava para assumir seu lugar na Williams. Em uma coletiva marcada pelo clima de reconciliação entre os dois rivais históricos, Senna surpreendeu ao voltar mais de uma década no tempo e recordar os anos em que competiu no kart europeu ao lado de Fullerton. Segundo o brasileiro, o britânico era um piloto extremamente rápido, consistente e completo, alguém com quem aprendeu muito durante sua formação nas pistas.

A admiração de Senna não era gratuita. Terry Fullerton foi um dos maiores pilotos de kart de sua geração. O britânico conquistou o Campeonato Mundial de Kart em 1973, venceu cinco campeonatos europeus entre 1971 e 1980, foi campeão norte-americano em 1980, acumulou cinco títulos britânicos nacionais e ainda conquistou quatro vezes a prestigiada Champions Cup. Seu currículo o coloca entre os maiores kartistas da história da modalidade.

Foi justamente nesse ambiente que Senna e Fullerton se conheceram. No fim da década de 1970, o brasileiro desembarcou na Europa para competir pela equipe italiana DAP. À época, ainda utilizava o sobrenome “da Silva” e era apenas um jovem piloto promissor de 18 anos. Já Fullerton, sete anos mais velho, era a principal estrela da equipe e recebia salário para competir. Desde os primeiros testes, realizados em Palma de Maiorca, o britânico percebeu que havia algo especial naquele jovem brasileiro.

Nos primeiros anos da convivência, Fullerton levou vantagem. Com mais experiência e domínio técnico, superava Senna regularmente nas competições de kart. O próprio britânico relembra que o brasileiro possuía talento extraordinário, mas ainda precisava amadurecer taticamente. A partir de 1979 e especialmente em 1980, a diferença entre os dois começou a diminuir. Senna evoluiu rapidamente e passou a desafiar o companheiro de equipe de igual para igual. Ainda assim, segundo relatos do próprio Fullerton, o brasileiro jamais conseguiu derrotá-lo de forma definitiva no kart internacional.

A rivalidade tornou-se tão intensa que Senna passou a enxergar o britânico como a principal referência de desempenho dentro da categoria. Décadas depois, já consagrado como tricampeão mundial de Fórmula 1, ele continuava citando Fullerton como o adversário mais difícil que enfrentara.

Curiosamente, Fullerton também enfrentou outros futuros campeões da Fórmula 1. Entre seus rivais estavam Prost, Mansell e Piquet. Ainda assim, ele afirmava que o único competidor que realmente o obrigava a elevar constantemente seu nível de concentração era Senna. Segundo o britânico, o brasileiro possuía um talento natural raro, capaz de evoluir em velocidade impressionante.

Apesar de todo o talento, Terry Fullerton nunca chegou à Fórmula 1. Durante anos, especulou-se que a falta de recursos financeiros teria impedido sua ascensão. Contudo, a verdadeira razão era muito mais pessoal e dolorosa. Seu irmão mais velho, Alec Fullerton, era piloto de motociclismo e morreu após sofrer um grave acidente durante uma corrida em Mallory Park, na Inglaterra. Terry estava presente no circuito e presenciou as consequências da tragédia quando tinha apenas 11 anos de idade.

O episódio marcou profundamente sua vida e influenciou sua visão sobre o automobilismo profissional. Na década de 1970, a Fórmula 1 ainda convivia com elevados índices de mortalidade, registrando frequentemente a perda de pilotos durante as temporadas. Fullerton admitiu diversas vezes que não desejava seguir para uma categoria onde a morte fazia parte da rotina das competições. Além disso, seus pais dificilmente suportariam perder outro filho em circunstâncias semelhantes. Foi esse trauma que o levou a permanecer no kart, mesmo tendo potencial reconhecido para chegar ao topo do automobilismo mundial.

Enquanto Senna avançava rumo à Fórmula Ford, Fórmula 3 e, posteriormente, à Fórmula 1, Fullerton construiu uma carreira sólida no kartismo. Em 1984, ano da estreia do brasileiro na principal categoria do automobilismo, ele fundou sua própria equipe de kart e passou a atuar na formação de novos talentos. Por suas mãos passaram pilotos como Allan McNish, Anthony Davidson, Paul di Resta, Justin Wilson e Dan Wheldon.

Hoje, já aposentado das competições, Fullerton continua ligado ao esporte por meio da fabricação de chassis e do desenvolvimento de jovens pilotos. Sua trajetória tornou-se uma das histórias mais curiosas do automobilismo: a de um homem que nunca correu uma única prova de Fórmula 1, mas que foi apontado pelo próprio Ayrton Senna como o melhor piloto que enfrentou em toda a sua carreira.

Fonte: Xataka Brasil / Terra

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