Redução gradual da jornada de 44 para 40 horas semanais exigirá reorganização das viagens, contratação de profissionais e ajustes nos prazos de entrega
A adoção da escala 5×2 poderá elevar os custos do transporte rodoviário de cargas e mudar a rotina dos caminhoneiros empregados. A proposta aprovada pelo Senado prevê a redução gradual da jornada semanal de 44 para 40 horas, sem corte salarial, além da ampliação de um para dois dias de repouso remunerado. A mudança ainda depende das etapas necessárias para entrar em vigor.
Segundo estimativa de Cleiton César, vice-presidente da Federação das Empresas de Transporte de Cargas e Logística de Minas Gerais (Fetcemg), a nova escala poderá gerar um aumento anual de custos entre R$ 12 bilhões e R$ 28 bilhões para o setor. Para manter o volume de operações, transportadoras poderão precisar contratar mais motoristas, reorganizar escalas e rever a programação das viagens. O impacto dependerá das jornadas praticadas atualmente e das condições de cada empresa.
Nas viagens de longa distância, a mudança também levanta dúvidas sobre como garantir os dois dias de descanso quando o motorista estiver longe de casa. Sem ajustes nos horários de carregamento e descarregamento e no planejamento logístico, o caminhoneiro poderá cumprir a folga em postos ou pátios, sem conseguir aproveitar o período com a família. O setor terá de conciliar os novos direitos trabalhistas com os prazos de entrega e a disponibilidade de profissionais.
A escassez de mão de obra pode ampliar o desafio. Dados apresentados pela Confederação Nacional do Transporte (CNT) indicam que 65,1% das empresas consultadas apontam a função de motorista como a de maior carência de profissionais, enquanto 44,6% relatam vagas em aberto. Diante desse cenário, empresas poderão recorrer mais a caminhoneiros autônomos, que não recebem automaticamente os mesmos direitos de jornada e repouso remunerado previstos para empregados.
Os custos adicionais também poderão chegar aos embarcadores e consumidores, caso parte das despesas seja repassada aos fretes e aos preços dos produtos. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) estima que a redução da jornada para 40 horas, com manutenção dos salários, possa elevar os custos de produção da economia brasileira em até R$ 267,2 bilhões. Essa projeção abrange diferentes setores e não corresponde exclusivamente ao transporte de cargas.
Outro ponto de atenção é a discussão da PEC 22/2025, que prevê flexibilizar o descanso diário dos motoristas profissionais, permitindo o fracionamento das 11 horas de repouso nas condições estabelecidas pelo texto. A eventual mudança exigirá atenção aos efeitos sobre a fadiga e a segurança viária. A escala 5×2 poderá ampliar o tempo de descanso semanal, mas seus resultados dependerão também da organização das operações e da garantia de condições reais para os motoristas repousarem.
Fonte: Estradas.com.br



