Um navio transportador de gás liquefeito de petróleo (GLP) pagou um valor recorde de US$ 5,3 milhões, cerca de R$ 27 milhões, para garantir uma vaga prioritária de passagem pelo Canal do Panamá. O lance foi feito pela sul-coreana SK Gas para o navio G. Spirit, que tem trânsito programado para 1º de setembro, pouco antes de uma nova redução no número de embarcações autorizadas a cruzar diariamente o canal.
O valor foi alcançado em um leilão da Autoridade do Canal do Panamá (ACP), mecanismo utilizado para oferecer vagas a embarcações que precisam assegurar uma data de trânsito. O lance superou o recorde anterior, de US$ 4,6 milhões, registrado no início de agosto, e ficou próximo de 100 vezes a mediana de cerca de US$ 55 mil observada nos leilões antes de fevereiro.
Seca aumenta disputa por vagas
A disparada no preço ocorre em um momento de pressão sobre a capacidade do canal. O El Niño vem contribuindo para uma forte estiagem na região da América Central, reduzindo a quantidade de água disponível nos reservatórios que alimentam o sistema de eclusas.
Segundo informações divulgadas pela Autoridade do Canal do Panamá, as chuvas na bacia hidrográfica do canal entre maio e agosto ficaram 34% abaixo da média histórica, enquanto os fluxos de água ficaram 44% menores. A situação levou o Panamá a declarar emergência relacionada ao El Niño.
A redução da disponibilidade hídrica é particularmente importante porque o funcionamento das eclusas depende de grandes volumes de água doce. Além de limitar o calado — a profundidade máxima que os navios podem apresentar ao atravessar o canal —, a falta de água pode obrigar a autoridade a restringir o número de embarcações.
A partir de 3 de setembro, dois dias depois da passagem programada do G. Spirit, o limite diário cairá de 36 para 34 navios. Em 15 de setembro, a capacidade será reduzida novamente, para 32 embarcações por dia.
Por que uma empresa paga milhões por uma vaga?
O pagamento não corresponde simplesmente a uma tarifa regular de US$ 5,3 milhões. Trata-se do valor de um lance vencedor em um leilão por uma vaga de trânsito, pago além das tarifas normais do canal. O sistema permite que embarcações que precisam de maior previsibilidade disputem uma oportunidade de passagem.
A lógica econômica é simples: para uma embarcação que transporta uma carga de alto valor, ficar vários dias parada pode custar mais do que pagar milhões de dólares para garantir a passagem.
Navios sem reserva podem enfrentar espera. Segundo informações divulgadas pela Euronews com base em dados da AFP, embarcações sem reserva enfrentavam espera média de aproximadamente cinco dias, enquanto outras informações sobre o congestionamento apontavam períodos de espera de até 11 dias em determinadas situações.
O aumento da concorrência também ajuda a explicar o preço extraordinário. De acordo com informações atribuídas à autoridade do canal, houve ocasião em que 18 empresas disputaram uma única vaga, enquanto normalmente eram registradas apenas duas ou três propostas.
Canal é estratégico para o comércio mundial
O Canal do Panamá conecta o Atlântico ao Pacífico e é uma das principais rotas marítimas do planeta. A passagem permite que navios evitem a longa rota ao redor da América do Sul e reduz significativamente tempo e custos em diversas operações comerciais.
O canal responde por aproximadamente 5% do comércio marítimo mundial e é especialmente importante para fluxos comerciais entre os Estados Unidos e a Ásia. Seus principais usuários incluem Estados Unidos, China, Japão, Chile e Coreia do Sul.
A importância do canal para o mercado de energia também é grande. Transportadores de GLP e gás natural liquefeito (GNL) estão entre os navios que podem atribuir alto valor à passagem rápida, especialmente porque a rota permite conectar produtores e consumidores de diferentes regiões sem a necessidade de utilizar alternativas mais longas.
Problema já havia provocado crise em 2023
A atual situação lembra a crise provocada pela seca de 2023, quando os níveis dos lagos que abastecem o canal chegaram a patamares críticos. Naquele período, a Autoridade do Canal do Panamá reduziu o número de passagens diárias de 38 para 22 embarcações, provocando filas e atrasos e levando empresas a procurar rotas alternativas.
A diferença agora é que o canal entra novamente em um período de restrição enquanto a demanda pelo transporte marítimo permanece elevada. A autoridade panamenha não descarta novas medidas caso as condições de chuva não melhorem.
O caso do G. Spirit mostra, portanto, como uma vaga de passagem por um canal marítimo pode se transformar em um ativo de milhões de dólares quando a capacidade da rota fica limitada. Para a SK Gas, o custo extraordinário do leilão representa o preço de garantir que uma carga de GLP atravesse o canal justamente antes do início de novas restrições.
Fontes: Autoridade do Canal do Panamá; Euronews/AFP; The Guardian/AFP; Kuehne+Nagel, com informações atribuídas à Autoridade do Canal do Panamá.



