Recarga sem fio pode mudar a forma como ônibus elétricos são abastecidos durante a operação

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Tecnologia desenvolvida pela Electreon permite transferir energia por indução em pontos estratégicos e até durante o deslocamento dos veículos

Por Emerson Pereira – Foto Divulgação Electreon

A eletrificação dos ônibus urbanos traz um desafio que vai além da substituição dos motores a diesel: como manter os veículos elétricos em operação durante longos períodos sem comprometer a oferta de transporte?

Uma das alternativas apresentadas na Lat.Bus 2026, em São Paulo, é a recarga sem fio desenvolvida pela empresa israelense Electreon. A tecnologia utiliza equipamentos instalados sob o pavimento para transferir energia por indução a um receptor instalado no ônibus, permitindo carregamentos durante paradas e, em determinados trechos, enquanto o veículo está em movimento.

A proposta chama atenção principalmente para sistemas de alta demanda, como os corredores BRT. Em vez de concentrar todo o abastecimento nas garagens, a infraestrutura pode ser distribuída por terminais, pontos de parada e trechos estratégicos das linhas.

Na prática, o ônibus pode receber pequenos volumes de energia ao longo da operação, enquanto realiza atividades que já fazem parte de sua rotina, como embarque de passageiros ou espera no terminal. A recarga passa, assim, a ser integrada ao funcionamento da linha.

Menos tempo parado

No modelo convencional de recarga, os ônibus precisam retornar à garagem ou permanecer estacionados durante determinado período para recuperar a carga das baterias. Em operações de alta frequência, esse tempo pode representar um desafio para o planejamento da frota.

A tecnologia da Electreon trabalha com diferentes possibilidades de carregamento. Há sistemas estacionários para garagens e terminais, recarga de oportunidade em pontos de parada e a chamada recarga dinâmica, realizada enquanto o ônibus trafega sobre trechos equipados.

A combinação dessas soluções pode permitir que a bateria seja continuamente abastecida durante o dia, reduzindo a necessidade de grandes períodos de parada exclusivamente para recarga.

Isso também abre espaço para discutir o tamanho das baterias. Se parte da energia necessária para cumprir a jornada for fornecida ao longo do percurso, determinados sistemas podem operar com baterias menores e mais leves. A viabilidade, porém, depende das características de cada linha, como extensão, topografia, frequência, demanda e infraestrutura elétrica disponível.

A tecnologia já foi testada em BRT

Em Trondheim, na Noruega, a Electreon implantou um projeto de recarga sem fio em uma rota de ônibus utilizada como referência para a eletrificação do BRT local.

O sistema permite que um ônibus elétrico seja recarregado automaticamente durante o movimento e nas paradas. O projeto foi desenvolvido em parceria com a operadora AtB e a autoridade de transporte do condado de Trøndelag, justamente para avaliar o funcionamento da tecnologia em condições reais de operação.

O caso norueguês também é relevante porque envolve uma operação submetida a condições climáticas e topográficas desafiadoras, incluindo temperaturas baixas e trechos com aclives.

Recarga passa a fazer parte da operação

A principal mudança proposta por esse tipo de tecnologia está na relação entre veículo e infraestrutura.

Em vez de pensar na recarga como uma atividade isolada, realizada quando o ônibus termina sua jornada, o sistema passa a distribuir os pontos de fornecimento de energia pela própria operação.

Para um corredor BRT, isso poderia significar, por exemplo, instalar equipamentos em terminais e em alguns pontos estratégicos da linha. O ônibus receberia energia durante essas paradas e, caso existam trechos equipados, também durante o deslocamento.

A Electreon afirma que seu sistema pode operar com uma combinação dessas modalidades, permitindo adaptar a infraestrutura ao perfil de cada operação.

O desafio para o transporte brasileiro

A discussão ganha importância à medida que o Brasil amplia a adoção de ônibus elétricos. O crescimento das frotas exigirá investimentos não apenas nos veículos, mas também em subestações, carregadores, redes elétricas, sistemas de gerenciamento e planejamento operacional.

Nesse cenário, a recarga sem fio aparece como uma das tecnologias que podem ser avaliadas para determinadas operações.

Ela não elimina a necessidade de garagens e carregadores convencionais, mas propõe uma lógica diferente: fazer com que a infraestrutura de energia acompanhe a operação dos ônibus, em vez de obrigar a operação a parar para buscar energia.

Para cidades que pretendem eletrificar corredores de alta demanda, essa pode ser uma das próximas fronteiras do transporte coletivo elétrico.

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