A poluição provocada pelo transporte rodoviário contribuiu para quase 700 mil mortes prematuras e 250 mil novos casos de asma infantil em todo o mundo em 2024, segundo estudo do Conselho Internacional de Transporte Limpo (ICCT). O levantamento aponta que, em média, a poluição dos veículos está associada a uma morte prematura a cada 45 segundos e a um novo caso de asma infantil a cada dois minutos.
O estudo, intitulado “Benefícios para a saúde do transporte de emissões zero até 2050”, também alerta para o aumento da desigualdade nos impactos da poluição. Enquanto países de alta renda devem reduzir em 48% as mortes prematuras relacionadas ao transporte rodoviário até 2050, a estimativa é de crescimento de 50% nos países de renda média e de 200% nos países de baixa renda.
Segundo o autor principal do estudo, Lingzhi Jin, a tendência está relacionada ao avanço mais rápido da limpeza das frotas nos países de maior renda, enquanto nações de baixa e média renda podem assumir uma parcela cada vez maior dos impactos sobre a saúde.
No Brasil, o cenário também tende a se agravar. O ICCT estima que o número de mortes prematuras associadas à poluição dos veículos rodoviários no país poderá aumentar 47% até 2050. Em 2024, foram aproximadamente 8 mil mortes prematuras relacionadas à exposição à poluição do transporte rodoviário e cerca de 9,2 mil casos de asma pediátrica.
Para o instituto, uma eletrificação ampla da frota mundial é necessária para reduzir de maneira significativa os impactos da poluição sobre a saúde nas próximas décadas. O estudo considera que o crescimento populacional, o envelhecimento da população e o aumento da frota de veículos pressionam ainda mais os efeitos da poluição sobre a saúde.
O levantamento analisou dois cenários para projetar os impactos da eletrificação até 2050. O primeiro, chamado Momentum, considera as metas atuais de eletrificação, inclusive aquelas que ainda não são obrigatórias. Nesse cenário, 57% das vendas brasileiras de veículos leves novos seriam de modelos elétricos em 2050.
A situação seria diferente entre os veículos pesados. Responsáveis por aproximadamente 60% das emissões globais de poluentes do transporte rodoviário, eles chegariam a apenas 12% de participação de modelos elétricos nas vendas em 2050 dentro do cenário Momentum.
O segundo cenário, chamado Ambicioso, considera que praticamente 100% das vendas globais de veículos leves e pesados sejam compostas por modelos de emissão zero. De acordo com o ICCT, essa seria a única alternativa capaz de provocar uma redução significativa dos impactos da poluição sobre a saúde.
Nesse cenário, o estudo estima uma redução de até 80% nas mortes prematuras, o equivalente a aproximadamente 8,8 milhões de vidas preservadas até 2050. Os casos de asma infantil também poderiam cair 63%.
Para o Brasil alcançar esse cenário, 61% das vendas de veículos leves precisariam ser de modelos de emissão zero já em 2035, chegando a 100% em 2045. Entre os veículos pesados, a participação deveria atingir 64% em 2035 e também chegar a 100% em 2045.
A meta oficial da Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE) é que veículos elétricos e híbridos representem 30% do mercado brasileiro em 2030. Segundo o estudo do ICCT, porém, esse ritmo de eletrificação não seria suficiente, em escala global, para produzir uma redução relevante dos impactos da poluição sobre a saúde.
Os números mais recentes mostram que o mercado brasileiro de eletrificados está avançando, mas ainda distante das metas consideradas necessárias pelo instituto. No primeiro semestre de 2026, foram vendidos 215.023 veículos eletrificados no país, segundo a ABVE. Desse total, 90.626 unidades, ou 42%, eram veículos 100% elétricos.
Para Josh Miller, diretor sênior do ICCT e coautor do estudo, somente uma estratégia ambiciosa de eletrificação seria capaz de romper a relação entre o crescimento da frota e o aumento dos impactos sobre a saúde. Segundo a projeção apresentada pelo instituto, a adoção acelerada de veículos de emissão zero poderia evitar quase 9 milhões de mortes entre agora e 2050.
Fonte: Terra / Estadão



