A Ford decidiu mudar sua estratégia de desenvolvimento e controle de qualidade ao reconhecer que a inteligência artificial, sozinha, não foi suficiente para alcançar os padrões esperados pela empresa. Após enfrentar uma sequência de problemas de qualidade e um elevado número de recalls nos últimos anos, a montadora trouxe de volta profissionais experientes para aperfeiçoar tanto os processos produtivos quanto o treinamento de seus sistemas de IA.
Nos últimos três anos, a fabricante contratou, promoveu ou recontratou cerca de 350 engenheiros seniores nos Estados Unidos, muitos deles ex-funcionários da própria empresa. Esses especialistas passaram a atuar na revisão de projetos, na identificação preventiva de falhas e no treinamento das ferramentas de inteligência artificial utilizadas nas etapas de engenharia e controle de qualidade.
Segundo a montadora, a experiência demonstrou que a IA depende diretamente da qualidade das informações utilizadas em seu treinamento. A empresa acreditava que bastaria alimentar os sistemas com os requisitos técnicos dos projetos para obter resultados equivalentes aos da análise humana, mas concluiu que isso não ocorreu na prática. O vice-presidente de engenharia de hardware da Ford, Charles Poon, afirmou que a inteligência artificial é uma ferramenta valiosa, porém seu desempenho está diretamente ligado ao conhecimento fornecido por profissionais experientes.
A mudança de estratégia começou a produzir resultados. A Ford conquistou a primeira colocação entre as marcas generalistas no J.D. Power Initial Quality Study, levantamento norte-americano que avalia a qualidade dos veículos durante os primeiros três meses de uso. O desempenho representa uma recuperação importante para a fabricante, que vinha enfrentando dificuldades relacionadas à confiabilidade de seus modelos.
Apesar da melhora nos indicadores, os desafios ainda permanecem. A empresa estima gastar US$ 1 bilhão em 2026 com despesas relacionadas a garantias e materiais, reflexo dos problemas acumulados em veículos desenvolvidos em anos anteriores. Além disso, a Ford segue trabalhando para reduzir o número de campanhas de recall, embora reconheça que ainda não seja possível estabelecer um prazo para que esses índices retornem aos níveis desejados.
O diretor de operações da montadora, Kumar Galhotra, afirmou que os engenheiros veteranos passaram a desempenhar um papel decisivo na prevenção de defeitos, identificando potenciais falhas antes mesmo de as peças chegarem à linha de produção. Já o CEO Jim Farley destacou que a empresa começa a recuperar parte das perdas acumuladas nos últimos anos, reforçando a estratégia de combinar inteligência artificial e experiência humana, em vez de substituir completamente o trabalho dos especialistas.
O caso da Ford passou a ser citado como um exemplo de que, apesar dos avanços da inteligência artificial, o conhecimento técnico acumulado por profissionais experientes continua sendo fundamental em processos complexos de engenharia e desenvolvimento automotivo. A experiência da montadora indica que a IA tende a gerar melhores resultados quando utilizada como ferramenta de apoio ao trabalho humano, e não como sua substituta integral.
Fonte: Terra Mobilidade, com informações da Bloomberg.



