O aumento dos roubos rápidos praticados por criminosos que quebram os vidros dos carros para furtar celulares e objetos de valor tem levado motoristas a adotar novas estratégias de proteção. Conhecida popularmente como “gangue do quebra-vidro”, essa modalidade criminosa se tornou uma das principais preocupações de quem circula por grandes centros urbanos, especialmente em São Paulo, onde os casos ganharam grande repercussão nos últimos meses.
A preocupação é refletida no comportamento de condutores como o taxista Marcio de Carvalho, de 52 anos, que, após sofrer sucessivos assaltos ao longo da carreira — o mais recente em maio deste ano — decidiu instalar películas escuras e reforços de segurança em seu novo veículo. Segundo ele, a medida busca dificultar que criminosos identifiquem quem está dentro do carro ou visualizem possíveis objetos de valor.
O crescimento desse tipo de crime ocorre em meio ao aumento da sensação de insegurança. Pesquisa Datafolha citada pela reportagem mostra que 58% dos brasileiros acreditam que a criminalidade aumentou no país, índice que sobe para 64% no estado de São Paulo. Apenas na capital paulista, foram registradas mais de 161 mil ocorrências de roubos e furtos de celulares durante 2025, segundo dados da Secretaria da Segurança Pública paulista.
Películas antivandalismo registram aumento de procura
Entre os itens mais procurados pelos motoristas estão as chamadas películas antivandalismo, desenvolvidas para dificultar a quebra imediata dos vidros. Embora não impeçam totalmente a invasão do veículo, elas aumentam o tempo necessário para que o criminoso consiga acessar o interior do carro, podendo desestimular a ação.
O crescimento da demanda já é percebido pelo mercado. O Grupo T-Line, que representa marcas como Toyota, Jeep, RAM e BYD, informou ter registrado um aumento de aproximadamente 50% na instalação dessas películas durante o primeiro trimestre de 2026, em comparação com o mesmo período do ano passado.
Além da proteção contra invasões, o equipamento também ajuda a reter estilhaços em caso de quebra do vidro, reduzindo o risco de ferimentos aos ocupantes.
Como age a gangue do quebra-vidro
A atuação dos criminosos costuma ocorrer em locais de tráfego lento, congestionamentos e semáforos. O alvo principal são motoristas que utilizam o celular enquanto aguardam a abertura do sinal ou permanecem distraídos dentro do veículo.
Uma das vítimas relatadas pelo Terra foi a esteticista Ana, de 38 anos, assaltada na Marginal Pinheiros, em São Paulo, na sexta-feira (7 de fevereiro). Segundo ela, o celular estava apoiado próximo ao colo quando ouviu o impacto do vidro sendo quebrado. O aparelho foi levado em poucos segundos. A vítima descreveu a experiência como extremamente violenta.
De acordo com especialistas em segurança, muitos criminosos utilizam pequenos fragmentos retirados da cerâmica de velas de ignição. Quando arremessados contra o vidro lateral, esses pedaços criam um ponto de tensão que faz o material se fragmentar quase instantaneamente, com pouco ruído.
Rastreadores, câmeras e monitoramento remoto ganham espaço
Outra tendência observada é a expansão dos sistemas de rastreamento veicular. Estimativas citadas pela reportagem apontam que cerca de 1,5 milhão de veículos brasileiros já utilizam algum tipo de rastreador, número ainda pequeno diante da frota nacional de aproximadamente 124 milhões de veículos, indicando amplo potencial de crescimento.
Também cresce a procura pelas chamadas dashcams, câmeras instaladas no interior dos veículos capazes de registrar acidentes, tentativas de roubo, vandalismo e abordagens suspeitas. Em muitos modelos, as imagens podem ser acessadas em tempo real por meio do celular.
Especialistas alertam: tecnologia ajuda, mas não elimina os riscos
Apesar dos avanços tecnológicos, especialistas ressaltam que nenhum equipamento é capaz de impedir totalmente a ação criminosa. Por isso, hábitos simples continuam sendo considerados fundamentais para reduzir a exposição ao risco.
Entre as recomendações estão não utilizar o celular em semáforos ou congestionamentos, evitar deixar bolsas, mochilas e equipamentos eletrônicos visíveis, manter portas travadas e vidros fechados, além de preservar distância suficiente do veículo à frente para permitir uma manobra de fuga em situações suspeitas.
A legislação brasileira também estabelece limites para o escurecimento dos vidros. O para-brisa e os vidros laterais dianteiros devem manter ao menos 70% de transmissão luminosa, o que impede o uso indiscriminado de películas muito escuras. Segundo especialistas, segurança e visibilidade precisam caminhar juntas para evitar acidentes.
O avanço da chamada gangue do quebra-vidro mostra que, para muitos motoristas, a escolha de um carro já não envolve apenas conforto, desempenho ou economia. Cada vez mais, a preocupação passa a incluir uma pergunta que se tornou essencial nas grandes cidades brasileiras: o quanto esse veículo consegue me proteger?
Fonte: Terra




