Por Emerson Pereira – Foto Reprodução SóMob
O reajuste da tarifa de ônibus de Salvador para R$ 5,90 trouxe o tema do custo do transporte público novamente ao centro das discussões. O novo valor passou a ser superior ao cobrado pelo ônibus em São Paulo e no Rio de Janeiro, o que despertou questionamentos entre usuários, sobretudo quando a comparação envolve a qualidade dos veículos, a capacidade da frota e o nível de investimento público em cada sistema.
Em São Paulo, a operação do transporte coletivo é marcada por exigências mais rígidas. A prefeitura determina o uso de ônibus com piso baixo, maior padrão de acessibilidade e ampla adoção de veículos articulados e biarticulados, especialmente nos corredores de maior demanda. Esses ônibus têm capacidade superior e contribuem para reduzir a superlotação, tornando o serviço mais eficiente nos principais eixos da cidade. Diante desse cenário, muitos passageiros se perguntam por que Salvador cobra uma tarifa mais alta sem apresentar, de forma equivalente, o mesmo padrão de frota.
A explicação, no entanto, não se resume ao valor isolado da passagem. Um dos principais diferenciais está no modelo de integração. Em Salvador, a tarifa de R$ 5,90 permite a utilização integrada de ônibus, metrô e BRT em um único deslocamento. Já em São Paulo e no Rio de Janeiro, a integração entre ônibus e metrô tem custo adicional: R$ 8,90 na capital paulista e R$ 8,80 na capital fluminense.
Essas diferenças refletem modelos operacionais distintos. São Paulo e Rio adotam sistemas em que os modais funcionam de forma mais independente, o que possibilita que grande parte das viagens seja feita apenas com ônibus–ônibus ou metrô–metrô. Isso reduz a necessidade de integrações intermodais em muitos deslocamentos cotidianos e mantém o custo menor em parte das viagens. Além disso, essas cidades preservaram redes de ônibus mais extensas, com menor redução de linhas ao longo dos anos.
Outro fator decisivo está no volume de subsídios públicos destinados ao sistema. Em 2025, Salvador investiu cerca de R$ 67 milhões para auxiliar os operadores e manter o funcionamento do transporte coletivo. Em São Paulo, o aporte anual da prefeitura gira em torno de R$ 6 bilhões. No Rio de Janeiro, a previsão é de um investimento de aproximadamente R$ 1 bilhão e 600 milhões em 2026. A diferença de escala nesses investimentos impacta diretamente a qualidade do serviço, a renovação da frota e o valor final pago pelo passageiro.
Esse maior nível de investimento ajuda a explicar, por exemplo, o uso intensivo de ônibus articulados em São Paulo, sobretudo nos corredores estruturantes. Veículos de maior capacidade transportam mais passageiros por viagem, aumentam a eficiência operacional e reduzem a superlotação sem a necessidade de ampliar excessivamente a frota. Em Salvador, apesar da existência de eixos com alta demanda, o uso de articulados ainda é ignorado. Esse cenário reforça que, além do debate tarifário, a prefeitura precisa reconhecer e enfrentar a necessidade de investir em ônibus de maior capacidade, alinhando o padrão do serviço ao valor cobrado dos usuários.
Entre ganhos e perdas, fica claro que os sistemas de transporte de Salvador, São Paulo e Rio apresentam diferenças profundas. É inegável que o transporte público de Salvador precisa evoluir, especialmente em aspectos como conforto, capacidade e organização da rede. Ao mesmo tempo, a análise do custo não pode se restringir apenas ao preço do ônibus. Integração, modelo financeiro, nível de subsídios e decisões sobre frota são elementos centrais para compreender por que o transporte custa o que custa em cada capital.
Mais do que discutir se a tarifa é cara ou barata, o desafio está em transformar o sistema de transporte em algo mais eficiente, equilibrado e atrativo para quem depende do transporte público diariamente.



