Asfalto com vidro reciclado transforma garrafas descartadas em pavimento

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Uma experiência realizada em 1970, na Califórnia, abriu caminho para o uso de vidro reciclado na pavimentação de ruas e rodovias. Mais de cinco décadas depois, a tecnologia é aplicada em projetos de maior escala, especialmente na Austrália, onde o material é combinado a outros resíduos para reduzir o impacto ambiental das obras.

O primeiro teste ocorreu em 26 de outubro de 1970, em uma rua do parque industrial de Fullerton. Batizada de glasphalt, a mistura utilizava asfalto convencional e vidro triturado de garrafas descartadas. O trecho experimental tinha cerca de 183 metros de extensão e 7,6 centímetros de espessura. Na composição, o vidro representava 63% dos agregados, acompanhado de pó de rocha e cal hidratada. Uma faixa com asfalto tradicional foi mantida para comparação.

Apesar das dificuldades durante a aplicação, como a retenção de calor e a quebra de fragmentos durante a compactação, avaliações posteriores indicaram que o pavimento suportava o tráfego e apresentava aderência aceitável. A experiência estimulou outros testes nos Estados Unidos e no Canadá. Em Baltimore, pelo menos 17 ruas receberam o material entre as décadas de 1970 e 1980, mas o brilho dos fragmentos provocou reflexos que podiam prejudicar a visibilidade dos motoristas, principalmente com a pista molhada.

Nos anos 1990, Nova York ampliou o uso industrial da técnica e empregou aproximadamente 225 mil toneladas de vidro reciclado em serviços de recapeamento entre 1990 e 1995. Os estudos também ajudaram a aperfeiçoar a fórmula: concentrações acima de 15% e fragmentos maiores aumentavam o risco de perda de aderência e deterioração pela umidade. A recomendação passou a ser utilizar vidro moído com menos de 4,75 milímetros, em proporções geralmente entre 10% e 15% nas camadas superficiais.

Na Austrália, o município de Port Stephens aplicou, em 2023, uma mistura de vidro reciclado, borracha de pneus triturados e asfalto reaproveitado em duas ruas. A obra utilizou material equivalente a 80.750 garrafas e mais de 1.100 pneus, com redução estimada de 13,7 toneladas de CO₂ equivalente em comparação ao uso de insumos virgens. Na região metropolitana de Sydney, o programa Paving the Way viabilizou a reciclagem anual de 10,8 milhões de garrafas em usinas de asfalto. A cidade também registrou o reaproveitamento de mais de 500 mil recipientes por ano em sua malha viária.

Apesar dos resultados, o glasphalt ainda enfrenta obstáculos para se tornar uma alternativa amplamente adotada. O vidro precisa passar por limpeza, trituração e classificação rigorosas, além de apresentar menor interação com o ligante asfáltico, o que pode favorecer o desprendimento do material na presença de água. Custos de processamento e transporte também limitam a expansão. A experiência acumulada mostra que o desempenho depende menos da quantidade de vidro utilizada do que da granulometria e da proporção adequadas na mistura.

Fonte: Xataka Brasil