Cheiro de carro novo é planejado para despertar emoções e influenciar a percepção de qualidade

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Montadoras avaliam os odores de materiais e componentes para criar uma experiência sensorial agradável; neurociência explica como aromas ativam memórias e associações afetivas

O cheiro característico de um carro zero-quilômetro não é apenas consequência dos materiais utilizados na fabricação. As montadoras avaliam os odores de peças e revestimentos para tornar a experiência dentro do veículo mais agradável e evitar substâncias prejudiciais à saúde. A estratégia também está relacionada ao marketing sensorial, que utiliza aromas para influenciar a percepção de qualidade e valor do consumidor.

No Brasil, esse trabalho é realizado por profissionais especializados em avaliação olfativa. Maria de Lourdes Feitosa, apresentada como a primeira osmóloga veicular do país com certificação alemã, explica que a análise envolve identificar os odores de diferentes componentes e reconhecer como eles se combinam no interior do automóvel.

A avaliação permite identificar características específicas de cada material e verificar como elas contribuem para o aroma geral do veículo. Segundo Feitosa, os fornecedores também precisam apresentar documentação que comprove a ausência de substâncias tóxicas, como benzeno e tolueno, que podem oferecer riscos à saúde.

O desenvolvimento desse aroma está ligado ao marketing sensorial, estratégia que busca criar experiências por meio dos cinco sentidos. De acordo com Vanessa Clarizia Marchesin, professora de Psicologia do Consumidor e Neurociências da ESPM, a indústria percebeu que o cheiro de carro novo passou a ser associado a ideias como novidade, limpeza e valor. Com isso, o estímulo olfativo tornou-se um elemento capaz de influenciar a avaliação que o consumidor faz do automóvel.

A prática ganhou espaço à medida que as fabricantes passaram a dedicar mais atenção à experiência dentro da cabine. Até meados do século passado, os odores dos veículos eram consequência principalmente dos materiais e processos industriais, sem o mesmo cuidado com a percepção olfativa. Com o tempo, a avaliação dos aromas passou a integrar o desenvolvimento de novos modelos.

Algumas marcas também adotaram sistemas específicos de fragrâncias. O Rolls-Royce Phantom, por exemplo, utiliza um difusor patenteado com uma combinação de amyris, pau-rosa, íris e cedro. Já o BMW Série 5 da geração G30 ofereceu um sistema de tratamento do ar com cartuchos e fragrâncias substituíveis. Nesses casos, o aroma é uma escolha adicional, diferente do cheiro produzido naturalmente pelos materiais do veículo.

A neurociência ajuda a explicar por que os odores podem influenciar tanto a experiência de quem dirige. Segundo Marchesin, o sistema olfativo tem conexões com regiões cerebrais relacionadas às emoções e à memória. Por isso, um aroma pode despertar uma sensação familiar ou uma lembrança afetiva antes mesmo de a pessoa identificar conscientemente o cheiro.

A repetição dessas associações também pode fortalecer a ligação entre um aroma e uma experiência positiva. O cheiro do carro da família durante a infância, de viagens antigas ou do primeiro veículo próprio pode fazer com que a pessoa associe determinados odores a conforto, segurança e pertencimento. Essa relação ajuda a explicar por que o cheiro de carro novo pode ser percebido como sinal de qualidade, mesmo sem uma avaliação objetiva de todos os componentes do automóvel.

Fonte: Terra / Jornal do Carro / ESPM

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