
Especialistas defendem que exame obrigatório para habilitação pode identificar sinais de sofrimento psíquico e orientar motoristas a buscar atendimento
A avaliação psicológica exigida para obtenção da Carteira Nacional de Habilitação (CNH) pode representar uma oportunidade de identificar problemas de saúde mental entre brasileiros que dificilmente procuram esse tipo de atendimento. A discussão ganha destaque durante o Setembro Amarelo, campanha de prevenção ao suicídio, diante dos índices de ansiedade e depressão no país.
Segundo dados citados no levantamento do Instituto Cactus com a AtlasIntel, apenas 5,1% dos brasileiros fazem psicoterapia. A pesquisa aponta ainda que cerca de 19% da população consultou um psicólogo ou psiquiatra no último ano, mas a maioria não chegou a cinco encontros. O cenário é associado pelos pesquisadores à dificuldade de acesso ao atendimento psicológico, especialmente na rede pública.
Para especialistas da área de psicologia do trânsito, o exame para obtenção ou renovação da CNH não deve ser visto apenas como uma etapa burocrática. Durante a avaliação, profissionais observam aspectos comportamentais e emocionais que podem indicar ansiedade, depressão, uso de substâncias e alterações relacionadas ao comportamento agressivo. Quando identificados sinais de sofrimento, o motorista pode ser orientado a procurar acompanhamento médico ou psicológico.
A diretora da Associação de Clínicas de Trânsito de Minas Gerais (Actrans), Giovanna Varoni, relata que há situações em que o próprio candidato não percebe a dimensão do problema apresentado. Segundo ela, a avaliação pode funcionar como uma oportunidade de encaminhamento para tratamento quando a pessoa não procuraria espontaneamente um serviço de saúde mental.
A relação entre saúde mental e segurança viária também preocupa os especialistas. Quadros de depressão e outros transtornos podem estar associados a alterações de atenção, raciocínio, impulsividade e uso de substâncias, fatores que podem interferir na condução de veículos. A preocupação é ainda maior entre motoristas profissionais, que enfrentam jornadas extensas, pressão por prazos e períodos prolongados longe da família.
Para a psicóloga do Tráfego e especialista em segurança viária Adalgisa Lopes, enfraquecer a avaliação psicológica pode reduzir uma das oportunidades de contato de parte da população com profissionais capacitados para perceber sinais de sofrimento. A discussão, segundo ela, envolve não apenas a aptidão para dirigir, mas também a possibilidade de orientar pessoas que apresentam problemas de saúde mental e ainda não buscaram ajuda.
Fonte: Portal do Trânsito / Instituto Cactus / AtlasIntel / Associação de Clínicas de Trânsito de Minas Gerais (Actrans)


