Marco legal do transporte público trava por financiamento, pressões políticas e incertezas jurídicas

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A aprovação do marco legal do transporte público coletivo urbano, considerado uma das principais reformas estruturais da mobilidade no país, enfrenta um conjunto de entraves que vão muito além da tramitação legislativa. Embora o projeto já esteja pronto para votação no plenário da Câmara desde fevereiro de 2026, com regime de urgência aprovado, a proposta segue travada por disputas políticas, divergências técnicas e resistências econômicas em torno do seu ponto mais sensível: quem paga a conta do transporte público no Brasil.

O principal foco de tensão está no modelo de financiamento. O texto aprovado no Senado previa a criação de novas fontes de receita, como taxações sobre estacionamento, congestionamento, emissões e até plataformas de transporte por aplicativo. Essas medidas, no entanto, geraram forte reação no Congresso, especialmente entre parlamentares da oposição e setores econômicos, que classificaram as propostas como aumento indireto de carga tributária. A pressão levou o relator na Câmara, deputado José Priante, a retirar integralmente esse trecho, considerado o mais controverso da proposta.

Essa mudança, porém, abriu uma nova frente de conflito. Parte da base governista e especialistas do setor avaliam que a retirada das fontes de financiamento esvazia o principal objetivo do projeto, que é justamente reduzir a dependência da tarifa paga pelo usuário. Sem receitas estruturadas, o risco apontado é manter o modelo atual, marcado por tarifas altas, subsídios insuficientes e baixa qualidade do serviço.

Além do embate econômico, há também um impasse jurídico relevante. O relator argumenta que algumas das medidas de financiamento previstas no texto original poderiam ser inconstitucionais, por invadirem competências de estados e municípios — responsáveis diretos pela gestão do transporte urbano. Essa interpretação reforçou a decisão de retirar dispositivos, mas também aumentou a insegurança sobre o alcance real da futura lei.

No campo político, a proposta virou moeda de negociação em um Congresso já pressionado pelo calendário eleitoral. A votação chegou a ser pautada em março, mas foi adiada após a apresentação de cerca de dez emendas de última hora, inclusive sugestões do próprio governo. O relator pediu mais tempo para consolidar um texto de consenso, evitando que alterações obriguem o projeto a retornar ao Senado, o que atrasaria ainda mais sua aprovação.

Outro fator de atraso é o ambiente político do próprio Legislativo. A tramitação coincidiu com a chamada janela partidária, período de reorganização das bancadas antes das eleições, o que esvaziou o plenário e reduziu a prioridade da pauta. Com isso, mesmo considerado estratégico por prefeitos e governadores, o projeto acabou sendo sucessivamente adiado.

Nos bastidores, a pressão é intensa e vem de múltiplos lados. De um lado, prefeitos e entidades do setor de transporte defendem a aprovação rápida, alegando crise estrutural do sistema e necessidade urgente de novas fontes de financiamento e segurança jurídica. De outro, há resistência de parlamentares preocupados com impacto fiscal, aumento de tributos e interferência da União nas competências locais.

Esse choque de interesses ajuda a explicar o paradoxo atual: o projeto reúne apoio amplo — inclusive com maioria potencial no plenário —, mas enfrenta dificuldades para fechar um texto final que agrade simultaneamente governos locais, operadores, Congresso e sociedade.

Hoje, o marco legal segue em uma espécie de “limbo legislativo”: avançou tecnicamente, ganhou urgência política, mas está travado por uma disputa central ainda não resolvida — como financiar um sistema de transporte público mais barato sem criar novos custos políticos ou fiscais.

Sites pesquisados: Câmara dos Deputados, Senado Federal, CNN Brasil, Mobilize Brasil, Agência Estado Broadcast, Associação Nacional de Transportes Públicos

Exclusivo Somob

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