Salvador aposta na renovação, mas deixa a capacidade em segundo plano

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Por Emerson Pereira – Foto Divulgação Mercedes-Benz

A sinalização do prefeito de Salvador sobre um possível reajuste da tarifa do transporte público em 2026 ocorre em meio a novos anúncios da gestão municipal. Recentemente, a Secretaria Municipal de Mobilidade (Semob) informou que até março cerca de 300 novos ônibus serão incorporados ao sistema, reforçando o discurso de modernização da frota que opera na capital.

Nos últimos anos, Salvador passou a receber veículos climatizados, uma demanda antiga dos usuários e um avanço inegável em termos de conforto. No entanto, essa modernização veio acompanhada de uma mudança silenciosa, mas relevante: os ônibus entregues ao sistema são, em sua maioria, menores do que os modelos adotados em ciclos anteriores de renovação.

Desde 2022, o padrão predominante no sistema Integra tem sido o ônibus convencional de 12,5 metros. Até 2020, a cidade recebia veículos com cerca de 13,2 metros, o que representava maior capacidade de passageiros. A diferença pode parecer sutil, mas, na prática, impacta diretamente a lotação dos veículos, especialmente nas linhas mais carregadas da cidade.

Além disso, modelos de maior porte, como ônibus trucados e articulados, deixaram de fazer parte das renovações do sistema convencional de Salvador, há muito tempo. Esses veículos são amplamente utilizados em outras cidades brasileiras e têm papel fundamental na absorção de grandes volumes de passageiros. Em Salvador, porém, esse tipo de solução segue sendo ignorado pelos consórcios que operam o sistema Integra, mesmo diante de recorrentes queixas de superlotação.

O resultado é um paradoxo cada vez mais perceptível para quem utiliza o transporte diariamente: os ônibus são novos, climatizados e visualmente modernos, mas continuam insuficientes para atender à demanda real. Para o passageiro, a experiência pouco muda quando o aperto persiste, independentemente se o ônibus é novo ou um veículo mais antigo.

Sem uma análise mais criteriosa sobre o dimensionamento da frota e a adequação do tipo de ônibus ao perfil de cada linha, a política de renovação tende a ter efeito limitado. Nesse cenário, a gestão municipal corre o risco de apenas “enxugar gelo”, promovendo avanços pontuais sem enfrentar um dos principais gargalos do sistema.

A discussão sobre transporte público em Salvador precisa ir além da quantidade de ônibus entregues ou do anúncio de veículos climatizados. Capacidade, planejamento operacional e leitura técnica da demanda são fatores decisivos para que os investimentos se traduzam em melhorias concretas. Caso contrário, a renovação seguirá deixando a capacidade em segundo plano — exatamente onde está hoje uma das maiores insatisfações dos usuários.

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