Acordo entre os três países propõe rever metas de emissões previstas para 2035 e priorizar veículos fabricados na Europa; mudanças ainda dependem de aprovação do bloco
Alemanha, França e Itália articulam mudanças nas regras ambientais da União Europeia para permitir maior flexibilidade à indústria automotiva e ampliar os incentivos à produção local. A proposta busca rever as exigências previstas para 2035, que determinam uma redução drástica das emissões de CO₂ dos carros novos, e abrir espaço para a continuidade dos modelos com motores a combustão.
O entendimento entre Berlim e Paris foi anunciado pelo chanceler alemão, Friedrich Merz, após uma reunião do Conselho Europeu. A Itália também manifestou apoio à iniciativa. As mudanças, porém, ainda precisam passar pelo Conselho da União Europeia e pelo Parlamento Europeu, portanto, não representam o cancelamento definitivo das regras em vigor.
A proposta prevê eliminar a exigência de compensar as emissões residuais dos veículos que continuariam sendo produzidos após 2035. Um acordo discutido anteriormente previa uma redução de 90% nas emissões, com possibilidade de manter determinados modelos híbridos e veículos movidos a combustíveis sintéticos ou hidrogênio, desde que os 10% restantes fossem compensados. A nova articulação pretende flexibilizar essa condição.
Outra frente do acordo é a criação de incentivos para automóveis classificados como made in Europe. Pela proposta descrita, a certificação exigiria que 70% dos componentes do veículo, excluída a bateria, fossem fabricados na União Europeia. Também haveria uma exigência de fornecimento local para parte das baterias. O objetivo é fortalecer a cadeia produtiva europeia diante da concorrência internacional, especialmente de fabricantes chineses.
A iniciativa ocorre em um momento de pressão sobre as montadoras tradicionais do continente. O Grupo Volkswagen anunciou um amplo plano de redução de custos e empregos, enquanto fabricantes como Mercedes-Benz e BMW enfrentam dificuldades para competir em mercados importantes e recuperar o desempenho comercial na China. Os investimentos em eletrificação também aumentaram os custos das empresas, em meio a uma transição tecnológica cuja velocidade varia conforme o mercado.
A Alemanha, que abriga a maior indústria automotiva europeia, busca preservar empregos, fábricas e fornecedores. A França, por sua vez, defende medidas para incentivar a fabricação dentro do bloco e reduzir a dependência de veículos e componentes produzidos no exterior. Os dois países também apoiam a criação de uma categoria de carros elétricos urbanos mais acessíveis, chamada eCar, inspirada nos modelos compactos japoneses conhecidos como kei cars.
A discussão sobre as metas ambientais já havia passado por ajustes. Em 2025, a União Europeia flexibilizou o período de cálculo das emissões médias das frotas, permitindo que as montadoras considerassem os resultados acumulados entre 2025 e 2027, em vez de responderem apenas pelo desempenho de um único ano. A medida buscou dar mais tempo às empresas para ampliar as vendas de veículos menos poluentes.
A proposta de flexibilização, contudo, enfrenta resistência dentro do bloco. A alteração das regras exige apoio de pelo menos 15 dos 27 países-membros, que representem 65% da população da União Europeia. Países como a Espanha defendem a manutenção de metas ambientais mais rigorosas e vêm atraindo investimentos para a produção de veículos elétricos em seu território.
Até que haja uma decisão formal das instituições europeias, a meta de 2035 continua sujeita às regras atualmente estabelecidas. O acordo político entre as três potências indica uma tentativa de mudar a estratégia de transição do setor, conciliando a redução de emissões com a competitividade da indústria automotiva europeia.
Fonte: Xataka Brasil



