Bólido criado por Ernest Eldridge a partir de um Fiat de competição de 1908 usava motor de 21,7 litros e precisou ganhar marcha a ré para ter o recorde homologado
Um Fiat construído há mais de um século com um motor de avião de 21,7 litros chegou a 234,98 km/h e estabeleceu um dos recordes de velocidade mais impressionantes da década de 1920. Batizado de Mefistofele, o carro foi criado artesanalmente pelo britânico Ernest Eldridge a partir de um Fiat SB4 Corsa de competição de 1908.
Eldridge, nascido em Londres em 1897, teve contato com automóveis durante a Primeira Guerra Mundial, quando atuou como motorista de ambulância. Depois do conflito, passou a se dedicar às duas paixões: automobilismo e aviação. A combinação das duas atividades resultou em um veículo construído para buscar marcas de velocidade.

O coração do projeto era um motor Fiat A-12Bis de seis cilindros e 21.706 cm³, originalmente desenvolvido para aviões. Eldridge modificou os cilindros e instalou quatro válvulas por unidade, além de velas Magneti Marelli. O conjunto desenvolvia cerca de 320 cv a 1.800 rpm, com taxa de compressão de 5:1.
A carroceria também tinha uma origem pouco convencional. Parte da estrutura foi adaptada a partir dos destroços de um ônibus londrino. O conjunto enorme, barulhento e de aparência incomum acabou recebendo o apelido de Mefistofele, em referência ao personagem demoníaco da tradição europeia.
Em 5 de julho de 1924, Eldridge levou o carro à Route Nationale 20, nas proximidades de Arpajon, na França, para disputar um recorde contra René Thomas, piloto da Delage. Ao volante do Delage V12 La Torpille, Thomas tinha um carro de potência semelhante, com cerca de 320 cv.
Eldridge registrou 230,55 km/h, mas a marca foi contestada porque o Mefistofele não possuía marcha a ré. O equipamento era exigido para a homologação do recorde. No dia seguinte, Thomas superou a marca com 230,63 km/h.
O britânico não desistiu. Com a ajuda de um ferreiro local, instalou um dispositivo de marcha a ré no bólido e voltou à estrada uma semana depois. Em 12 de julho de 1924, alcançou 234,98 km/h, recuperando o recorde com o veículo agora adaptado às exigências para homologação.
A marca permaneceu entre os principais feitos de velocidade em estradas abertas. Pouco tempo depois, por razões de segurança, os recordes passaram a ser disputados principalmente em circuitos e pistas fechadas, o que tornou essas antigas marcas em estrada especialmente relevantes.
Eldridge ainda estabeleceu outros recordes em 1925, incluindo marcas em distâncias de 5 e 10 quilômetros lançados e 5 milhas lançadas. O recorde de velocidade máxima obtido pelo Mefistofele em 1924, porém, acabou sendo superado por Malcolm Campbell em setembro daquele mesmo ano.
O carro sobreviveu e atualmente está preservado no Centro Storico Fiat, em Turim, na Itália. Curiosamente, a restauração não encontrou vestígios do sistema de marcha a ré instalado por Eldridge em 1924, mantendo desconhecida a solução mecânica usada para permitir que o gigantesco bólido pudesse se movimentar também no sentido contrário.
Fonte: Xataka Brasil



