Herlander Zola: primeiro brasileiro no comando da operação sul-americana (Stellantis/Divulgação)
CEO da operação sul-americana afirma que grupo pode manter ou encerrar unidades argentinas conforme mercado, custos e regras; empresa também avalia ampliar parcerias com montadoras chinesas
A Stellantis admite a possibilidade de fechar uma ou até as duas fábricas que mantém na Argentina, caso as condições de mercado, os custos e as regras de comércio reduzam a competitividade da produção local. A afirmação foi feita por Herlander Zola, presidente da operação da empresa na América do Sul, que também defendeu a definição de um modelo de proteção à indústria automotiva instalada no Brasil.
Segundo o executivo, a situação das fábricas argentinas está diretamente relacionada à perda de participação da Peugeot no mercado daquele país. Em 2025, a marca tinha cerca de 9% de participação e, em 2026, esse índice caiu para aproximadamente 5%. A abertura do mercado argentino também aumentou a concorrência com veículos chineses e modelos fabricados no Brasil.
A Stellantis possui duas unidades industriais na Argentina e, de acordo com Zola, poderá adotar diferentes estratégias: transferir a produção de uma fábrica para outra, manter as duas em operação ou encerrar uma ou ambas. Um dos fatores apontados pelo executivo é o custo da mão de obra, que, segundo ele, é aproximadamente o dobro do registrado no Brasil.
A decisão, porém, não depende apenas do mercado argentino. O Brasil responde por cerca de 65% do volume da Stellantis na América do Sul, e mudanças nas regras brasileiras podem alterar a competitividade de toda a operação regional. Zola afirmou que fatores como o próximo governo, o câmbio e a política para veículos importados também precisam ser considerados antes de novos investimentos industriais.
O executivo defendeu que o Brasil estabeleça regras capazes de dar previsibilidade às montadoras que produzem no país. Para ele, o modelo deve considerar o compromisso de fabricação local e diferenciar empresas que investem na produção brasileira daquelas que pretendem apenas importar veículos. Zola citou medidas adotadas pelos Estados Unidos e pela União Europeia para restringir a entrada de produtos chineses e afirmou que o Brasil precisa definir qual caminho pretende seguir.
A concorrência chinesa já alterou o cenário do setor automotivo em 2026. Segundo Zola, a participação acumulada das marcas chinesas no mercado brasileiro passou de cerca de 9% em 2025 para 17% em 2026 e ultrapassou 25% em um dos meses recentes deste ano. Ele reconheceu que a indústria ocidental errou ao estimar a velocidade de avanço dessas empresas e da eletrificação.
A Stellantis também considera ampliar as parcerias com fabricantes chineses. O grupo já controla 51% da divisão internacional da Leapmotor e mantém uma parceria global com a Dongfeng. Zola afirmou que a empresa pode ampliar essas alianças caso isso seja necessário para aumentar a competitividade e adaptar a oferta às mudanças do mercado.
A Leapmotor é apontada pelo executivo como uma das principais ferramentas da Stellantis para ampliar a oferta de tecnologias e veículos eletrificados. Ele também indicou que a parceria com a Dongfeng pode ganhar novos desdobramentos na América do Sul, embora não tenha detalhado quais produtos ou marcas poderiam chegar à região.
No Brasil, a estratégia da empresa combina eletrificação, redução de custos e ampliação de modelos de maior rentabilidade. Zola afirmou que SUVs, picapes e veículos posicionados na faixa intermediária do mercado devem continuar concentrando grande parte da demanda, enquanto os carros de entrada tendem a operar com margens menores.
Entre janeiro e julho de 2026, a Stellantis emplacou quase 440 mil veículos no Brasil, com participação de 27% no mercado. No mesmo período, foram cerca de 563 mil unidades vendidas na América do Sul, correspondentes a 20% do mercado regional. A Fiat respondeu por 19,6% das vendas brasileiras entre janeiro e julho, enquanto a Strada alcançou 97.948 unidades e permaneceu como o veículo mais vendido do país.
Fonte: Exame



