Por Fabrizzio Muller (Ex Secretário de Mobilidade e Superintendente da Transalvador) – Foto SóMob
As tão esperadas férias escolares trazem, para estudantes e pais, um período de descanso. Para as grandes cidades, porém, representam também um alívio perceptível no trânsito. Basta chegar o recesso estudantil para que a mobilidade urbana melhore sensivelmente — um respiro que dura pouco mais de um mês no fim do ano e cerca de 15 dias em junho.
Nos oito anos em que atuei como superintendente executivo de trânsito em Salvador, confesso que também sentia esse alívio. A melhoria na mobilidade da cidade nesse período é expressiva.
Esse “problema” é antigo e recorrente nos grandes centros urbanos e exige, tanto das equipes de operação de trânsito quanto das áreas de engenharia e planejamento, um trabalho intenso para mitigar os impactos negativos no fluxo de veículos no entorno de pequenas, médias e grandes instituições de ensino.
Na minha época de estudante no Colégio Marista, na antiga sede do Canela, o engarrafamento formado em frente à escola impactava não apenas as vias do próprio bairro, mas também regiões importantes como o Campo Grande, o Corredor da Vitória e o Vale do Canela. A proximidade com outras instituições da região — como a UCBA, o Colégio 2 de Julho, as Sacramentinas e o Colégio Antônio Vieira — transformava toda a área em um verdadeiro caos, especialmente nos horários da manhã e na hora do almoço, em razão da entrada e da saída dos alunos.
E vale lembrar: naquela época, a frota total de veículos da cidade era menos de um terço da atual.
Diante desse cenário, surge uma pergunta inevitável: a quem compete a responsabilidade pelos impactos que essa dinâmica causa nas cidades? Às escolas, às prefeituras ou aos pais?
A resposta é simples: a todos.
Não é justo responsabilizar apenas as prefeituras, que autorizaram o funcionamento da atividade em determinado local; nem as escolas, que muitas vezes parecem não dimensionar os transtornos gerados; tampouco os órgãos de trânsito, que frequentemente não dispõem de efetivo suficiente para operar diariamente nesses pontos. A responsabilidade é compartilhada, e cada ator precisa cumprir seu papel dentro da sua capacidade de colaboração.
Cabe à prefeitura, por meio de seus órgãos técnicos, analisar de forma rigorosa e criteriosa os impactos gerados por novos empreendimentos educacionais e exigir todas as contrapartidas necessárias para minimizar os efeitos sobre o trânsito. Isso inclui intervenções viárias, sinalização adequada e, principalmente, a criação de áreas internas suficientes e apropriadas para embarque e desembarque de alunos. Evidentemente, também é fundamental evitar a autorização de novas escolas em locais claramente inapropriados.
Às instituições de ensino cabe planejar e distribuir os horários de chegada e saída dos alunos de forma escalonada, considerando as diferentes faixas etárias. Também é essencial manter equipes treinadas para orientar pais e estudantes nos momentos de maior fluxo, garantindo que os processos de embarque e desembarque ocorram com segurança e agilidade. Além disso, sempre que possível, devem oferecer vagas de estacionamento suficientes para paradas mais demoradas.
Os pais também têm grande responsabilidade nesse processo. Evitar parar em fila dupla, não furar filas, não obstruir vias e agilizar ao máximo o embarque e desembarque dos filhos são atitudes simples que fazem enorme diferença no funcionamento do sistema.
Já ao órgão de trânsito — frequentemente o mais lembrado e criticado quando o problema aparece — cabe planejar, orientar e fiscalizar o comportamento das instituições e dos usuários.
Durante minha gestão, muitas vezes amanheci em frente a diversas escolas da cidade. Junto com equipes de engenharia e fiscalização, buscávamos entender a dinâmica local e identificar gargalos para implementar soluções capazes de amenizar os impactos. Digo amenizar porque, em muitos casos, é impossível eliminar completamente um problema gerado por instituições que funcionam há 40, 50 ou até 80 anos em um mesmo local — espaços que simplesmente não foram planejados para a realidade urbana atual.
Foi nesse contexto que surgiu a ideia de criar a figura dos monitores de trânsito credenciados pela Transalvador. O objetivo era exigir que os chamados PGVs (Polos Geradores de Viagens) contratassem monitores treinados pelo órgão de trânsito para organizar o fluxo no entorno das escolas, reduzindo os impactos nos horários de maior movimento.
Entre as instituições de Salvador que enfrentam esse desafio, destaco como exemplo positivo o Colégio Antônio Vieira. Trata-se de uma escola centenária, com dimensões comparáveis às de um grande shopping center, cerca de 2.800 alunos e localizada em um bairro antigo, com espaço viário bastante limitado.
O colégio realiza diariamente uma verdadeira operação de logística nos horários de pico escolar. Utiliza todo o espaço interno disponível — incluindo quadras esportivas — para organizar o embarque e desembarque de alunos. Funcionários muito bem treinados operam internamente, enquanto monitores também capacitados atuam do lado externo da escola.
Além disso, o colégio adotou horários escalonados de entrada e saída, com pontos específicos de embarque e desembarque definidos por séries. A Transalvador colaborou no planejamento e acompanhou a implementação da operação até sua consolidação.
O órgão de trânsito também mantém atuação em pontos estratégicos mais distantes e realiza rondas para intervir quando necessário. O resultado não é a eliminação total dos transtornos, mas uma melhoria significativa em relação ao cenário anterior.
Outro elemento importante nesse sistema é o transporte escolar regulamentado, que desempenha um papel relevante ao reduzir o número de veículos particulares nos horários de pico.
Que o bom exemplo do Colégio Antônio Vieira inspire outras instituições. Quando escolas deixam de adotar boas práticas para mitigar os impactos de sua própria atividade, não apenas prejudicam a cidade, mas também seus próprios clientes — pais e alunos — que passam a enfrentar diariamente momentos de estresse e perda de tempo.
Mais grave ainda: a falta de planejamento e organização pode colocar em risco a segurança de alunos, pais e funcionários, aumentando o risco de acidentes, especialmente atropelamentos.
Mobilidade urbana é, acima de tudo, um esforço coletivo. E quando cada parte faz a sua parte, todos ganham — inclusive a cidade.



