Se Ponta Grossa compra articulados, por que Salvador não investe em ônibus maiores?

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Fotos: Henry Milleo e Fabio Daniel/PMPG

A cidade de Ponta Grossa, no interior do Paraná, concluiu logo após o carnaval a entrega de 55 novos ônibus para o sistema de transporte coletivo. A renovação inclui 35 veículos convencionais, 5 articulados e 5 “super articulados” — estes últimos com cerca de 23 metros de comprimento e capacidade para transportar mais de 160 passageiros por viagem.

O investimento chama atenção não apenas pelo volume, mas principalmente pelo perfil da frota incorporada. Ao optar por veículos de grande porte, a administração municipal prioriza aumento de capacidade operacional em corredores de maior demanda, reduzindo a necessidade de múltiplas viagens para atender o mesmo fluxo de passageiros.

Ponta Grossa possui aproximadamente 375 mil habitantes, população inferior à de cidades baianas como Vitória da Conquista e muito distante da realidade demográfica de Salvador, que ultrapassa 2,4 milhões de moradores. Ainda assim, o município paranaense incorporou ônibus articulados e biarticulados à sua malha urbana. A tarifa praticada na cidade é de R$ 5,00 nos dias úteis e R$ 2,00 aos fins de semana.

O movimento reacende um debate inevitável sobre o modelo adotado na capital baiana. Desde a implantação do sistema Integra, em Salvador, as renovações de frota têm priorizado majoritariamente a quantidade de veículos adquiridos, mas sem avanço proporcional na capacidade unitária dos ônibus.

Embora a cidade tenha iniciado, a partir de 2019, a incorporação de veículos climatizados — um ganho relevante em conforto — houve, paralelamente, uma redução no porte dos coletivos convencionais. Modelos que tradicionalmente tinham cerca de 13,2 metros passaram a ser substituídos por veículos de aproximadamente 12,5 metros, diminuindo a capacidade média por unidade.

Na prática, ônibus menores exigem maior número de viagens para transportar o mesmo contingente de passageiros, o que pode impactar diretamente a eficiência operacional, especialmente em corredores estruturais com alta demanda.

O contraste entre as duas realidades levanta uma questão técnica e estratégica: enquanto cidades médias investem em ampliação de capacidade por veículo, Salvador tem adotado um modelo que privilegia renovação numérica da frota, mas com menor porte médio.

A discussão não se resume à compra de ônibus maiores, mas envolve planejamento de rede, dimensionamento de demanda, infraestrutura viária adequada e equilíbrio econômico-financeiro dos contratos de concessão. Ainda assim, o exemplo do interior do Paraná demonstra que a adoção de articulados e super articulados não está restrita às grandes capitais.

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