A NASA alcançou um dos marcos mais importantes da aviação nas últimas décadas ao fazer o X-59 romper a barreira do som pela primeira vez, um passo considerado fundamental para o desenvolvimento de futuras aeronaves comerciais capazes de voar mais rápido que o som sem produzir os estrondos sônicos que levaram à restrição desse tipo de operação em diversos países. O feito ocorreu na sexta-feira (5), durante um voo de testes realizado na Base Aérea de Edwards, na Califórnia, Estados Unidos.
O voo durou 81 minutos e foi conduzido pelo piloto de testes da NASA, Jim “Clue” Less. Durante a missão, o X-59 atingiu velocidade de aproximadamente Mach 1,1, equivalente a cerca de 1.150 km/h, e alcançou altitude de aproximadamente 13,2 mil metros. O objetivo principal desta etapa era verificar o comportamento da aeronave em condições supersônicas reais, expandindo gradualmente seu envelope de voo.
O projeto faz parte da missão Quesst (Quiet Supersonic Technology), criada para resolver um problema que acompanha a aviação supersônica há mais de meio século: o estrondo sônico. Quando uma aeronave ultrapassa a velocidade do som, gera ondas de choque que podem ser ouvidas no solo como explosões, causando desconforto à população e até danos estruturais em algumas situações. Foi justamente por causa desse fenômeno que, em 1973, os Estados Unidos restringiram voos supersônicos comerciais sobre áreas habitadas.
O verdadeiro teste ainda está por vir
Apesar da repercussão do primeiro voo supersônico, a NASA considera que a fase mais importante do programa ainda está por começar. Nos próximos testes, o X-59 deverá atingir Mach 1,4, cerca de 1.490 km/h, voando a aproximadamente 16,7 mil metros de altitude. Essas serão as condições operacionais utilizadas posteriormente nos testes sobre comunidades norte-americanas.
A grande questão não será a velocidade da aeronave, mas sim como o som produzido será percebido pelas pessoas em solo. O X-59 foi desenvolvido com um design extremamente incomum, incluindo um nariz alongado e soluções aerodinâmicas específicas para dispersar as ondas de choque e transformar o tradicional estrondo sônico em um som muito mais suave, descrito pelos engenheiros como um simples “thump”, semelhante a uma batida distante.
Segundo a NASA, a aeronave não foi criada para transportar passageiros. Sua função é servir como laboratório voador para coletar informações que possam permitir o desenvolvimento de uma nova geração de aviões supersônicos comerciais.
Dados poderão mudar regras internacionais
Após os testes de voo, a NASA pretende sobrevoar diversas comunidades dos Estados Unidos para medir a reação das pessoas aos ruídos produzidos pelo X-59. Os resultados serão compartilhados com órgãos reguladores nacionais e internacionais responsáveis por definir os limites aceitáveis de ruído para aeronaves.
A agência espera que os dados obtidos permitam criar novos padrões regulatórios baseados em evidências científicas, substituindo as regras formuladas décadas atrás, quando os únicos exemplos de aviação supersônica civil eram aeronaves como o Concorde, famoso pelos altos níveis de ruído.
Para chegar até esse ponto, a NASA utilizou tecnologias avançadas como simulações computacionais, dinâmica de fluidos, testes em túnel de vento e fotografia Schlieren, técnica capaz de visualizar as ondas de choque geradas pela movimentação do ar ao redor da aeronave. Agora, a agência busca comprovar se todos esses cálculos funcionam na prática.
O que pode mudar na aviação comercial
Caso os testes sejam bem-sucedidos, fabricantes poderão utilizar os dados do X-59 para desenvolver aviões comerciais supersônicos capazes de operar sobre áreas continentais sem causar os incômodos associados aos antigos modelos. Isso poderia reduzir drasticamente o tempo de viagens de longa distância.
Embora ainda não exista previsão para a entrada em operação desse tipo de aeronave, o sucesso do programa pode abrir caminho para uma nova era da aviação. Voos transcontinentais que atualmente levam várias horas poderiam ser realizados em tempos significativamente menores, desde que os reguladores considerem aceitável o nível de ruído produzido pelas futuras aeronaves.
O primeiro voo supersônico do X-59 representa, portanto, mais do que um avanço tecnológico. Trata-se de um passo decisivo em uma tentativa que a indústria aeronáutica persegue há décadas: tornar novamente viável a aviação comercial supersônica, mas desta vez de forma silenciosa e compatível com a convivência urbana.
Fonte: Terra (Xataka), NASA




