Uma startup americana apresentou uma nova possibilidade para o futuro dos motores a combustão: fazer um carro funcionar com amônia (NH₃), um combustível pouco convencional que pode, em teoria, eliminar as emissões de CO₂. A tecnologia foi desenvolvida em parceria com o Instituto Fraunhofer de Microtecnologia e Microssistemas (IMM), na Alemanha, e surge em meio à busca global por alternativas aos combustíveis fósseis.
O projeto é conduzido pela startup First Ammonia Motors (FAM), que conseguiu superar uma das principais barreiras técnicas do uso desse gás: a dificuldade de combustão. Tradicionalmente, a amônia precisa ser misturada com outros combustíveis, como diesel ou metanol, para funcionar em motores convencionais. A inovação apresentada resolve esse problema ao utilizar um sistema em que a amônia não queimada é reaproveitada no escapamento, onde se decompõe e libera hidrogênio, que é reinjetado no motor como aditivo para sustentar a combustão.
Nos testes, a tecnologia foi aplicada a um motor V8 de 6,6 litros da Chevrolet, originalmente projetado para gasolina. O funcionamento é semelhante ao de um motor convencional, mas com uma diferença relevante: o consumo de combustível praticamente dobra. Isso ocorre porque a amônia possui densidade energética cerca de 50% menor que a gasolina, exigindo maior volume para gerar a mesma potência.
Para compensar essa limitação, o veículo utilizado nos testes passou a transportar o dobro de combustível no tanque, o que levanta questionamentos sobre autonomia e viabilidade prática. Embora o abastecimento não seja mais demorado do que o convencional, o custo da amônia ainda é elevado, principalmente porque sua produção depende de processos energéticos intensivos, como a obtenção de hidrogênio por eletrólise e a separação de nitrogênio do ar.
Do ponto de vista ambiental, a proposta é promissora. Quando utilizada como combustível, a amônia pode gerar apenas nitrogênio e vapor d’água como subprodutos da combustão, eliminando emissões diretas de CO₂. No entanto, essa vantagem depende da produção de amônia “verde”, ou seja, obtida a partir de fontes renováveis — o que ainda é um desafio tecnológico e econômico.
Apesar do avanço técnico, a própria startup reconhece que a tecnologia ainda enfrenta obstáculos relevantes. Entre eles estão o alto consumo, o custo de produção do combustível, a ausência de infraestrutura de abastecimento e o baixo rendimento energético global. Esses fatores colocam a solução, pelo menos por enquanto, no campo experimental.
A empresa, no entanto, aposta em um cenário futuro de aumento no preço dos combustíveis fósseis para tornar a amônia mais competitiva. Também planeja desenvolver sua própria planta de produção no Texas a partir de 2027, o que pode reduzir custos e viabilizar aplicações comerciais em médio prazo.
O projeto surge em um momento de transição na indústria automotiva, em que múltiplas soluções disputam espaço — da eletrificação aos combustíveis sintéticos. Nesse contexto, a amônia aparece como mais uma alternativa possível para manter os motores a combustão relevantes, especialmente em setores onde a eletrificação enfrenta limitações.
A conclusão é clara: a tecnologia existe, funciona — mas ainda está longe de ser uma solução viável em larga escala. O desafio agora não é mais provar que o motor roda, mas sim torná-lo eficiente, acessível e escalável.
Fonte: Terra / Xataka



