Ônibus articulados ainda fazem falta no sistema de transporte de Salvador

0
528

Por Emerson Pereira – Foto Montagem SóMob

A ausência de ônibus articulados no sistema de transporte convencional de Salvador, o Integra, segue como um dos questionamentos mais recorrentes entre usuários e especialistas em mobilidade urbana. Veículos desse tipo, reconhecidos pela elevada capacidade de transporte, são amplamente utilizados como ferramenta para reduzir a superlotação em corredores de alta demanda — um dos principais gargalos enfrentados diariamente pelo transporte público da capital baiana.

Entre o fim da década de 1980 e ao longo dos anos 1990, os ônibus articulados integraram a operação regular do sistema de Salvador. Diversas empresas mantinham veículos sanfonados em linhas estratégicas, especialmente na ligação entre bairros populosos e áreas centrais. A partir dos anos 2000, esse modelo começou a ser gradualmente abandonado, até a retirada do último articulado em 2012.

Desde então, o Integra passou a operar exclusivamente com ônibus convencionais, inclusive em linhas com elevada demanda e recorrentes registros de lotação máxima. Do ponto de vista técnico, a reintrodução dos articulados poderia representar ganhos operacionais importantes, como o aumento da capacidade por viagem, a redução da formação de “comboios” — termo utilizado em Salvador para definir a circulação de múltiplos ônibus da mesma linha em sequência — e um aproveitamento mais racional da frota e da infraestrutura viária.

A experiência de outras cidades brasileiras reforça a viabilidade desse tipo de solução. Além de capitais com maior capacidade financeira e sistemas mais estruturados, como São Paulo e Curitiba, cidades de menor porte também mantêm ônibus articulados em operação regular. Exemplos como Aracaju, Vitória e Rio Branco demonstram que o uso desses veículos não está restrito a grandes metrópoles, mas pode ser adotado como estratégia eficiente de atendimento a eixos urbanos de alta demanda.

Em Salvador, algumas linhas apresentam características claras que justificariam a adoção de ônibus articulados. O levantamento, construído a partir de observações técnicas e da contribuição de integrantes do grupo Transporte em Debate (TED), aponta rotas que concentram grande volume de passageiros e enfrentam episódios frequentes de superlotação. Entre elas estão a 1034 (Parque São Cristóvão x Barroquinha), 1637 (Mirantes de Periperi x Imbuí), 1633 (Mirantes de Periperi x Ondina), 0137 (Lapa x Barra Avenida), 0136 (Lapa x Chame-Chame) e 1007 (Lapa x Jardim das Margaridas).

Outras linhas também apresentam demanda compatível com a operação de articulados, mas esbarram em limitações do sistema viário, como vias estreitas, curvas acentuadas ou infraestrutura inadequada. É o caso das linhas 1419 (Boca da Mata x BRT Hiper), 1386 (Nova Brasília x Barra) e 1511 (Terminal Pirajá x Engenho Velho da Federação).

O debate sobre o retorno dos ônibus articulados ao sistema de Salvador vai além da simples escolha de modelos de veículos. Trata-se de uma decisão estratégica de planejamento, diretamente relacionada ao combate à superlotação, à melhoria do conforto dos usuários e à redução de ineficiências operacionais, como a formação de comboios. Em um sistema pressionado por alta demanda e limitações estruturais, soluções de maior capacidade seguem sendo técnica e operacionalmente relevantes para a mobilidade urbana da cidade.

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here